domingo, 3 de novembro de 2019

O mito da democracia racial no Brasil e o sistema prisional brasileiro

Paulo de Oliveira dos Santos[1]

Nos últimos dias, os jornais de circulação nacional evidenciaram um caos que o sistema priosional brasileiro tem vivido. Presídios superlotados, comandados por facções criminosas que controlam o crime organizado de dentro das próprias instituições penais, são o resultado de um processo violento que temos vivido no Brasil.

As sociedades ocidentais sempre trataram as cadeias como espaços punitivos àqueles que, porventura, viessem descumprir as regras sociais. Ou seja, o instituto da reclusão é utilizado para o afastamento do convívio social daqueles indesejáveis, do que sua reabilitação enquanto indíviduo em uma sociedade capaz de lhe garantir condições mínimas de acesso à vida digna.


Michel Foucault, em um de seus textos, diz que a lei é construída pelos mais ricos, pelas elites econômicas e políticas, logo, são esses que estipulam o que é crime e a sua forma de punição. Por isso, o crime também é uma construção social que se dá, sobretudo, a partir da ideologia da classe dominante. Dessa forma, no sistema capitalista, o criminoso tem um perfil definido: é pobre, tem baixa escolaridade, é jovem e é negro!

O sistema capitalista é quem cria os pobres. Sua essência está na desigualdade econômica entre os indivíduos. A pobreza dificulta os acessos e deslegitima a democratização da riqueza e das políticas. Muitos acabam ficando de fora da escola em detrimento da necessidade de trabalho. O trabalho não é eterno, principalmente para aqueles que não têm alto nível de escolaridade. Os negros e as negras são os que mais se deparam com essa realidade, exatamente pelo fato de estarem ocupando as partes mais pobres das cidades, normalmente, com pouquíssimas políticas públicas. E os jovens são aqueles e aquelas que sonham em ter condições melhores de viver e, muitas vezes, encontram em situações de criminalidade a forma de ganhar a vida.

Óbvio que esse ciclo não é perfeito, afinal, se o fosse, não existiriam também alguns ricos que cometem crimes. Todavia, é uma forma de representação simplificada daquilo que encontramos ao observar a fundo o problema da criminalidade. Contudo, penso, que essa explicação deva excluir os crimes hediondos, aqueles repletos de crueldade, que, imagino, têm ainda muito a ser desvendado.

Entretanto é muito difícil de enxergar essa realidade no Brasil. Nosso país ainda vive preso no mito da democracia racial, afinal somos a “pátria mãe-gentil”. Ainda vendemos a imagem de que aqui nessas terras, todos se gostam e se respeitam. Ostentamos a falsa ilusão de que as cores e as etnias não nos separam enquanto homens e mulheres, pois somos todos humanos. Mas, na realidade, reproduzimos a pior forma de racismo. Nosso racismo é velado!

Ninguém tem medo do preto até se deparar sozinho com ele na rua durante a noite. Ninguém odeia o preto até ele estar numa posição hierarquicamente superior a sua no trabalho e você perceber o quanto ele é um “negro exibido”. Ninguém desrespeita o preto até ele ingressar na universidade via sistema de cotas.

Agora, quando o negro está na favela, nas vilas, ele não causa alvoroço, pois está em seu local natural.

Essa é uma questão importante para percebermos que o mito da democracia racial no Brasil contribui ativamente para que tenhamos um sistema prisional tão marcado pela violência institucional e simbólica como o nosso.

Pouco mais da metade da população brasileira se autodeclara negra ou parda. A maioria dos jovens analfabetos são de cor preta ou parda. A imensa maioria dos presos no Brasil são jovens negros. Ou seja, vivemos no Brasil um apartheid. Os negros e as negras do Brasil estão ocupando os presídios. A juventude negra brasileira, que luta por um novo Brasil, e encontra no sistema de cotas uma política pública importante de equiparação histórica, se defronta, diariamente, com a mão repressora do Estado que está de prontidão para pará-los nas ruas, nos supermercados, nas lojas, etc.



Os presídios não são espaços de vingança dos “cidadãos de bem” contra os “homens maus”. Mas, enquanto continuarmos tratando o sistema prisional e a política de segurança pública dessa forma, não vamos ter nada além do que um sistema falido que busca remediar o problema ao invés de tratar as verdadeiras causas da criminalidade. E esse sistema, já comprovou, não nos deixa seguros!




[1] Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.



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