Paulo
de Oliveira dos Santos*
Desde 2005, ano da
primeira grande crise do Partido dos Trabalhadores, com o Mensalão, setores do
partido, como o movimento Mensagem ao Partido, o qual conta com a participação
da corrente interna Democracia Socialista, reivindicam a tese da Refundação do
PT, como algo premente no sentido de reorganizar a agência do partido.
Muito embora a tese seja
defendida por intelectuais e quadros políticos de renome, como Paul Singer,
Tarso Genro e Raul Pont, a corrente petista que compõe o campo majoritário da
direção partidária em nível nacional, acabou, ao longo do tempo, suprimindo
esse debate. Com isso, chegamos a um ponto em que, reconhecidamente, inclusive
pelo ex-presidente Lula, “o PT tem se tornado cada vez mais um partido igual
aos outros" [1].
Dessa forma, participamos
das primeiras eleições municipais no período pós-golpe institucional. Fragilizados,
o PT e o conjunto da esquerda, viram o golpe ser legitimado nas urnas a partir
do crescimento do número de prefeituras comandadas pelos partidos que hoje
ocupam o governo usurpador de Michel Temer.
E a partir daqui, qual
será o caminho que o PT seguirá? Como se organizará diante do crescimento dos
setores da direita e de grupos com práticas fascistas? E o conjunto da
esquerda, tomará qual caminho?
Este artigo não se propõe
a responder nenhuma das três questões acima apresentadas, mas tem o intuito de
contribuir para o debate necessário de organização do PT e do conjunto da
esquerda no Brasil.
É inegável que o governo
Dilma vinha enfrentando altos índices de rejeição, como também é inegável que
os governos Lula e a primeira metade do primeiro governo Dilma tiveram amplo
apoio popular, exatamente por terem sido governos que retiraram milhões de
pessoas das linhas de pobreza. Mas isso não foi o suficiente para que as
pessoas passassem a confiar, majoritariamente, no PT, tanto que, na primeira
oportunidade, estiveram ao lado do golpe. E na segunda oportunidade, elegeram o
maior número de candidaturas aos executivos municipais dos partidos que,
nacionalmente, estão em lados opostos ao PT (Gráfico 1): PMDB, PSDB, PSD e PP.
Gráfico
1:
Em quatro anos, o Partido
dos Trabalhadores perdeu 374 prefeituras, enquanto que o PSDB e o PMDB
aumentaram sua representação em 120 executivos municipais.
Ao que tudo indica, a luta
“Fora Temer”, até aqui, tem sido derrotada por um contingente eleitoral que
opta pelos partidos que se colocam frontalmente contrários ao PT e ao conjunto
da esquerda.
Podemos citar algumas
hipóteses que pudessem explicar esse fenômeno como, por exemplo, a
marginalização do PT feita pela mídia, a espetacularização da Operação Lava
Jato, etc. Mas, todas elas buscam tirar a culpa do partido. Ou seja, aceitar
exclusivamente essas hipóteses é aceitar que “o inferno são outros”.
Culpar toda a conjuntura e
isolar-se dela, não é correto. O PT cometeu e ainda comete erros. E continuará
cometendo se não compreender que o sinal amarelo acendeu nas eleições de 2016.
Isto é, está passando da hora do Partido dos Trabalhadores realizar a sua
necessária autocrítica e, com isso, redefinir o seu rumo.
Ao longo da história, o PT
deixou de ser um partido revolucionário para tornar-se um partido reformista.
Tanto que, durante os governos Lula e Dilma, mesmo com a diminuição da pobreza,
houve aumento da desigualdade, exatamente porque os ricos lucraram ainda mais
com as taxas de juros elevadas pelo governo. Os governos do PT não mexeram no status quo, não quiseram ser
revolucionários.
Dessa forma, o PT foi
cedendo seu espaço à esquerda, por migrar ao centro em busca de alianças
eleitorais que lhe garantissem a vitória nas urnas. O Partido dos Trabalhadores
se tornou uma máquina de vencer eleições. Assim, a partir desse novo perfil, o
PT se configurou em um novo partido, com uma nova práxis. O cientista político
André Singer chega a dizer que o PT de Sion deu espaço ao PT do Anhembi, o que
criou o partido da conciliação de classes [2].
O Partido dos
Trabalhadores foi modificando a sua forma de fazer política. Reformas
estruturantes foram deixadas de lado nos governos em todas as esferas. Politizar
as massas já não era mais a tarefa primeira do PT e dos seus governos. Logo, o
partido que mudou para melhor a vida de milhões de pessoas, contribuiu
ativamente para o surgimento de uma cultura político-social contrária ao
próprio partido.
A drástica redução do
número de prefeituras ocupadas pelo PT, entre uma eleição e outra, expõe esse sentimento
de abandono ao partido, muito bem. E o fato de os partidos que se colocam mais
à direita terem aumentado o seu desempenho eleitoral ao Poder Executivo, é o
que mais deve preocupar. Ou seja, toda a esquerda perdeu.
A partir dessa informação,
na primeira eleição pós-golpe institucional, é que se mostra urgente a
necessidade de construção de uma frente ampla de esquerda. Por mais difícil que
pareça ser, unir a esquerda em torno de um inimigo comum, o avanço da direita,
é algo que deve ser articulado, pois, mesmo nos locais onde o PT manteve a
prefeitura, o resultado não nos parece tão positivo assim.
Em Sapucaia do Sul, o PT
chegou a prefeitura pela primeira vez em 2008. De lá pra cá, por mais que tenha
vencido todas as eleições que disputou, teve a sua votação para prefeito
reduzida em mais de 15 mil votos (Gráfico 2). Ou seja, o número de eleitores na
cidade aumenta, mas a votação do partido para governar a cidade diminui, mesmo
que vencedora.
Além disso, as
candidaturas do Partido dos Trabalhadores para a Câmara de Vereadores entre uma
eleição e outra, com excessão das três candidaturas mais bem votadas em 2016,
sofreram forte queda no número de votos (Gráfico 3, Anexo 1).
Gráfico
2:
Gráfico
3:
A redução dos votos das
candidaturas a vereança complicou a estratégia eleitoral do partido, que acabou
encerrando a eleição com duas cadeiras conquistadas para o Poder Legislativo,
mesmo número de cadeiras do PMDB e do PP – este último aumentando a sua
representatividade, de forma histórica, na Câmara Municipal.
Ou seja, o Partido dos
Trabalhadores, em Sapucaia do Sul, mesmo vencendo as eleições, a cada pleito
eleitoral tem diminuído, ainda que lentamente, a sua expressão na cidade
(Gráfico 4). E o pior, esse espaço não tem sido ocupado pelo PSOL ou demais
partidos que possam compor o campo da esquerda, mas sim pela direita
representada, principalmente, no PP.
Gráfico
4:
É nesse sentido que
reafirmamos a premente necessidade do PT realizar a sua autocrítica em relação
a sua atuação política até o presente momento e com isso iniciar o seu processo
de Refundação, definindo, então, ideologicamente e programaticamente a sua
práxis e as suas alianças. Ou seja, para o Partido dos Trabalhadores se
reencontrar com a esquerda, ele precisa dar um passo no sentido de reformulação
da sua agência política e, assim, assumir a vanguarda dos movimentos sociais juntamente
com o conjunto da esquerda.
Todavia, enquanto isso não
acontecer, o Partido dos Trabalhadores caminhará rumo ao esvaziamento e
apequenamento diante do período histórico em que está exposto.
Finalmente, penso que
somente a construção de uma frente ampla de esquerda, em que o inimigo comum
esteja bem definido, é capaz de modificar o atual cenário de crescimento das
forças de direita e de criminalização da política, sobretudo da esquerda. E
isso passa, invariavelmente, pelo movimento de Refundação do PT.
Anexo
1: Tabela de votação das candidaturas proporcionais do PT, em Sapucaia do Sul,
2012-2016.
Candidatos
|
2012
|
2016
|
Raquel
|
1231
|
1783
|
Adão do Calçado*
|
769
|
1625
|
Luciano
|
1255
|
1535
|
Eduardo Tito*
|
1205
|
912
|
Prof. Edson
|
1085
|
910
|
Wink
|
1026
|
856
|
Tita Nunes
|
1088
|
683
|
Marcio Daniel
|
667
|
|
Rubem Leo
|
708
|
578
|
Belmonte
|
418
|
|
Douglas Butzke
|
418
|
|
Nelsinho Metalúrgico
|
395
|
|
Claudinha*
|
374
|
350
|
Miriam Grisa
|
321
|
|
Lenara Michel
|
160
|
|
Márcia Chitolina
|
204
|
99
|
Link
|
2386
|
|
Prof. Adilpio
|
619
|
|
Gildo
|
525
|
|
Sergio Viero
|
522
|
|
Elvio
|
502
|
|
Sergio Teixeira
|
399
|
|
Luciano Rambo
|
356
|
|
Nelson Che
|
315
|
|
Nilton
|
213
|
|
Magda
|
149
|
|
Kenia
|
101
|
|
Maria Aparecida
|
96
|
|
Maria Helena
|
72
|
|
Tereza do Santos
|
21
|
|
PT - Legenda
|
2281
|
1542
|
Total
|
17502
|
13252
|
Thiago Batista**
|
1319
|
Fonte: TSE
*Candidaturas que
concorreram em outros partidos em 2012.
**Candidato do PSDC, partido coligado
na Proporcional com o PT em 2012.
* Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências
Sociais da UFRGS e filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 2007.
[1] “PT tem se tornado cada vez mais um partido igual aos
outros”, lamenta Lula.
Gazeta do Povo. Disponível em <http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/pt-tem-se-tornado-cada-vez-mais-um-partido-igual-aos-outros-lamenta-lula-ejokkst5x0ll63ia6wf4z7n0u> Acesso em 04 de
outubro 2016.
[2] Singer, André Vitor. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e
pacto conservador. São Paulo : Companhia das Letras, 2012.




Nenhum comentário:
Postar um comentário