sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Gestão participativa e políticas públicas: um breve relato sobre uma rápida passagem pela gestão da política de assistência social em Sapucaia do Sul

Paulo de Oliveira dos Santos*

Este artigo tem como objetivo tratar sobre a construção de algumas políticas sociais implementadas pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social em Sapucaia do Sul, a partir de meados de 2012 até o final daquele ano, tendo com base a participação de todos os envolvidos na política, desde os trabalhadores até os usuários do Sistema Único de Assistência Social – SUAS – na cidade.

Os partidos de esquerda e centro-esquerda, ao assumirem a posição de governos municipais, acabam se confrontando com muitas dificuldades tanto no sentido econômico, quanto social. Essas dificuldades são ainda maiores quando, durante todo o período histórico de existência da cidade, um partido do campo popular chega ao poder pela primeira vez.

A gênese dessas dificuldades, no âmbito municipal, é multifacetada. Ou seja, um partido de esquerda ou centro-esquerda, durante a condição de governo, tem de enfrentar os problemas oriundos da conjuntura nacional, das dificuldades socioeconômicas, culturais, etc.

Na política econômica, invariavelmente, os socialistas, ao assumirem o governo, devem ter uma agência no sentido de acumularem capital, o que parece ser paradoxal na luta anticapitalista, a fim de proporcionarem um governo capaz de realizar políticas públicas que atendam, sobretudo, os mais pobres. Logo, de acordo com a conjuntura econômica, o governo pode acabar tendo de enfrentar menos ou mais dificuldade no sentido de viabilizar suas políticas.

Enquanto isso, no campo social, a construção de políticas públicas eficazes, que venham ao encontro das necessidades, sobretudo das pessoas mais pobres, está, em grande parte, ligada às políticas econômicas, a fim de que sejam garantidas a sua consecução.

Todavia, muito além do debate econômico em relação às políticas sociais, está o próprio entendimento e organização das políticas públicas. De acordo com Celina Souza[1] (2006, p. 24), Peters define política pública como “a soma das atividades dos governos, que agem diretamente ou através de delegação, e que influenciam a vida dos cidadãos”. Além disso, ainda segundo a autora, Laswell define que “decisões e análises sobre política pública implicam responder às seguintes questões: quem ganha o quê, por quê e que diferença faz”.

Ora, sendo a política pública um conjunto de atividades promovidas pelos governos, a partir de análises que permitem decidir o quê, por quê e para quê, e que são capazes de agir diretamente na vida das pessoas, a forma de atuação dos governos populares na construção e implementação dessas políticas devem se diferenciar daqueles governos mais convencionais, sobretudo porque os governos de esquerda e/ou centro-esquerda devem ser promotores de uma agenda capaz de romper com o status quo a partir de uma atuação revolucionária, tendo como base a participação popular na decisão dos rumos do governo.

Nesse sentido, os partidos de esquerda e centro-esquerda ao obterem a condição de governos municipais devem se esforçar na radicalização da democracia. Ou seja, os governos de esquerda e centro-esquerda devem se empenhar, como diz o cientista político Luiz Marques (1999, p. 21), na “transição de uma democracia governada para uma democracia governante”.

Ou melhor, o que estamos defendendo aqui, é que a construção e a implementação de políticas sociais nos governos petistas, aconteçam a partir da participação popular, sendo o governo um ente parceiro tanto em acolher as demandas da sociedade, como em planejá-las junto com os cidadãos.

Foi isso, mais ou menos, o que tentamos fazer quando estivemos na equipe de gestão da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social do Município de Sapucaia do Sul, a partir de meados de 2012 até o final daquele ano.

Com início do primeiro governo petista na cidade, em 2009, a política de assistência social mudou completamente. Até aquele momento, ainda tínhamos uma política muito voltada ao assistencialismo, que se dignava a enfrentar somente problemas pontuais, sem um planejamento mais profundo de uma política que tem por objetivo garantir direitos sociais a quem dela precisar. Não tínhamos nenhum aparelho, como Centro de Referência de Assistência Social – CRAS – e Centro de Referência Especializado em Assistência Social – CREAS. Muito menos, tínhamos uma política de assistência social descentralizada na cidade, o que fazia com que inúmeras pessoas saíssem dos bairros e vilas mais distantes em busca de atendimento assistencial.

No início de 2012, ainda antes de assumirmos a gestão da Secretaria, Sapucaia do Sul já contava com 3 CRAS espalhados em diferentes regiões da cidade (Central, Nordeste e Sul). Já tínhamos o CREAS referenciado para os atendimentos de maior complexidade. Mas, acima de tudo, já tínhamos uma política de assistência social consolidada em Sapucaia do Sul. Foi quando fomos convidados a assumir a Secretaria. [2]

Assumir uma Secretaria de Governo não é uma tarefa fácil, sobretudo naquelas condições. Por um lado, de certa forma, temíamos que a troca abrupta na gestão pudesse retroagir a qualidade do serviço que era oferecido. Por outro lado, a adrenalina em, de fato, conhecer e apreender a política, bem como aprimorar ainda mais a sua prática, era motivadora.

Quando assumimos, a reforma do prédio para a instalação do quarto CRAS (região Sudeste) já estava quase pronta. Logo, uma das nossas primeiras tarefas era equipá-lo e colocá-lo em funcionamento, garantindo ao equipamento a equipe mínima que era exigida pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome.

Com o tempo, fomos aprendendo os termos, as siglas, a nomenclatura das políticas de assistência social tipificadas. Fomos aprendendo também o que era necessário para a implementação de cada política. Ou seja, tivemos uma vida bastante corrida e, posso dizer, exitosa naquele ano.

Conforme íamos nos apropriando da política a qual estava sob nossa responsabilidade, fomos nos dando conta da necessidade de reordenamento da política municipal de assistência social em relação à política nacional.

Portanto, decidimos que além das reuniões semanais de coordenação de CRAS e CREAS que fazíamos, passaríamos a realizar, também, reuniões de técnicos com certa frequência. Essas reuniões tinham o objetivo de caminharmos juntos em direção ao necessário reordenamento dos serviços socioassistenciais.

Ou seja, a gestão da Secretaria, nesse momento, tornou-se uma parceira dos trabalhadores do Sistema Único de Assistência Social – SUAS – da cidade a fim de que juntos pudéssemos garantir uma política socioassistencial adequada, estruturada e bem elaborada.

Assim, começamos a descentralizar completamente os serviços dos CRAS. Nossa intenção era democratizar os serviços melhorando as condições de acesso para os usuários.

A concessão dos benefícios eventuais como o da sacola básica, funeral, entre outros, ainda acontecia somente no CRAS Central. Isto é, por mais que pessoa morasse ao lado de um CRAS em alguma outra região da cidade e, naquele momento, necessitasse do benefício da sacola básica, ela teria que andar até o CRAS Central, pois este era o único que disponibilizava o referido serviço. O mesmo acontecia com os demais benefícios eventuais.

Acabamos com essa centralização. A partir daquele momento, todos os CRAS, inclusive o CREAS, poderiam disponibilizar o benefício eventual ao usuário.

Além disso, passamos a orientar que todas as pessoas que entrassem no CRAS em busca de qualquer serviço que fosse, deveriam passar pelo acolhimento com os técnicos. Para tanto, asseguramos que “todos os dias fossem dias de acolhimento”. Ou melhor, quando assumimos, os CRAS tinham agendado três dias para o acolhimento, e a pessoa que necessitasse de um benefício eventual não precisaria passar por esse serviço. Mudamos essa lógica. Em conjunto com as coordenações, garantimos que os CRAS fizessem o acolhimento todos os dias e para todas as pessoas, afinal, por traz do benefício eventual concedido, há sempre uma política pública que pode ser mais bem trabalhada com a família usuária do serviço.

Buscamos imprimir como marca daquela política, o escutar. Sempre dizíamos às coordenações e aos trabalhadores, que a marca da assistência social deveria ser escutar as pessoas e, junto com elas, buscar condições mais dignas para as suas vidas.

Tínhamos o entendimento que a partir de uma escuta apurada é que os técnicos conseguiriam referenciar aquela família em um determinado serviço, programa ou projeto, mais adequado às suas necessidades.

E, para além disso, começamos a pensar em mecanismos para que a própria gestão pudesse ouvir os usuários. Naquele curto espaço de tempo, chegamos a realizar reuniões com determinados grupos de usuários da política de assistência social a fim construirmos juntos algumas ações mais pontuais da secretaria. O que foi extremamente positivo, inclusive no sentido pedagógico para com os usuários.

Ademais, com o tempo, percebemos que um dos bairros com maior número de pessoas com o perfil para a inscrição no Cadastro Único dos Programas Sociais (CadÚnico), não estava sendo alcançada satisfatoriamente pelo CRAS da região. Sendo assim, tomamos como medida, naquele momento, intensificar a busca ativa, mas não só naquela região, como em todas as regiões referenciadas pelos demais CRAS.

De fato, deu certo resultado. Imediatamente, o número de participantes dos grupos do serviço de convivência e fortalecimento de vínculos de todas as faixas etárias aumentou. Também tivemos acréscimo no número de famílias referenciadas. Mas, mesmo assim, pensávamos que aquele referido bairro ainda precisava de uma atuação mais precisa. Foi assim que resolvemos criar o que, na época, chamamos de CRAS Volante – uma espécie de anexo do CRAS Nordeste alocado diretamente em um dos bairros com maior vulnerabilidade social.

A implantação do CRAS Volante foi combinada com o início do credenciamento das famílias do bairro para o Programa Minha Casa Minha Vida. Portanto, a primeira tarefa do CRAS, ainda em uma sala improvisada embaixo do ginásio da escola localizada no bairro, era realizar a inscrição das famílias no Cadastro Único para que elas pudessem se inscrever no Programa junto a Secretaria de Habitação. Ou seja, aproveitamos várias demandas externas, inclusive de atuação intersetorial, para a implantação daquela equipe.

Ademais, a implantação se deu em conjunto com a comunidade. Fizemos reuniões com os moradores, ouvimos suas demandas, explicamos o funcionamento do CRAS, e quando todos já estavam aguardando pelo serviço, iniciamos o trabalho de forma descentralizada do CRAS de origem.

Além disso, embora não fosse uma política diretamente ligada a Diretoria de Proteção Social Básica, participei diretamente da implantação do albergue para a população em situação de rua. Uma das demandas mais difíceis que tivemos. Como a população de rua é bastante itinerante, o referenciamento dos usuários foi uma tarefa complicada, e que também obtivemos êxito.

Claro que todo trabalho tem suas dificuldades. E a determinação no sentido de buscar a sua realização de forma satisfatória tem de ser a meta. Assim, lembro que uma das situações mais complexas que enfrentamos durante todo esse processo foi em relação a readequação do serviço de convivência e fortalecimento de vínculos para idosos.

Desde o início vimos que havia certa descaracterização do público atendido no serviço, todavia, não podíamos, simplesmente, retirar os idosos que estavam sendo atendidos dos grupos. Ao mesmo tempo, precisávamos ampliar o número de atendimentos para que os grupos pudessem receber os idosos referenciados no processo de busca ativa, já mencionado anteriormente.

Logo, criamos duas frentes de trabalho. Na primeira, um técnico do CRAS passaria a ser o referencial do serviço no seu território, e teria que realizar encontros mensais com os idosos com o objetivo de fazê-los conhecer a política em que estavam tendo atendimento. Na segunda, embora não seja um serviço próprio da Proteção Social Especial, foi criada uma equipe para referenciar e atuar diretamente com os idosos das Instituições de Longa Permanência para Idosos – ILPI.

A primeira frente de trabalho, no início, encontrou muita resistência por parte dos idosos que não compunham o perfil dos usuários do Cadastro Único, mas, mais próximo do final daquele ano, o processo começava a surtir efeito. Já a segunda frente de trabalho, por diversas razões, inclusive de dificuldade de pessoal para formar a equipe, infelizmente, não seguiu adiante.

Outras dificuldades que enfrentamos naquele momento estiveram ligadas ao número de trabalhadores, tendo em vista que muitos contratos foram se encerrando perto do final do ano e não tínhamos como fazer ou a renovação ou uma nova contratação, devido ao período. E também em relação a própria readequação da política de assistência social que exigiu muito de todos, principalmente da Secretária e dos diretores que estavam tendo seu primeiro contato com aquela política naquele momento.

Muito embora a tudo isso tenha exigido muito de nós, o balanço que fazemos é que tivemos uma atuação exitosa a frente da Secretaria de Desenvolvimento Social. Tínhamos como objetivo democratizar a política socioassistencial, a partir de um trabalho realizado por meio da participação dos trabalhadores e usuários do SUAS e, com esse balanço, pensamos que objetivo foi alcançado.

Obviamente que a gestão teve algumas falhas e erros pontuais na condução de todo esse processo, mas, com todo esse trabalho demonstrado em menos de 8 meses, não se pode negar a importância de tudo o que foi implementado.

Desde o início sabíamos que era quase nula a chance de permanecermos na Secretaria a partir do início da próxima gestão, por isso que fomos documentando todos os passos que eram dados pela equipe, bem como buscamos empoderar tanto trabalhadores como usuários para que a política de assistência social seguisse firme.

Por fim, acreditamos que tenhamos conseguido colocar em prática os princípios da participação e do empoderamento popular por meio das políticas públicas que tivemos a responsabilidade de coordenar.


·         Bibliografia
MARQUES, J. Luiz. Da democracia governada à democracia governante – Em defesa da participação popular. Argumento XXI. Porto Alegre. Impressão: Comunicação Impressa. nº 1, 1999.
SOUZA, Celina et al. Políticas públicas: uma revisão da literatura.Sociologias, v. 8, n. 16, p. 20-45, 2006.




* Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFRGS; foi Diretor Interino da Proteção Social Básica na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social de Sapucaia do Sul; é filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 2007.
[1] Celina Souza é Phd em Ciência Política pela London School of Economics and Political Science (LSE) e pesquisadora do Centro de Recursos Humanos (CRH) da Universidade Federal da Bahia.
[2] Com a aproximação do pleito eleitoral municipal, a equipe gestora da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social deixou o governo por estarem filiados a um partido que naquele momento optou por fazer parte da oposição ao projeto que estava coligado ao PT. Dessa forma, a partir desse rompimento, a educadora Ângela Schenatto foi convidada a assumir como Secretária da pasta. Logo em seguida, fui convidado a atuar na coordenação administrativa da secretaria, setor em que atuei por cerca de dois meses. Em seguida, fui convidado para atuar como Diretor Interino da Proteção Social Básica, atividade que exerci até o dia 31 de dezembro de 2012.