Não
costumo ler o jornal Zero Hora, apenas, de vez em quando, leio alguns artigos
que aparecem na minha “linha do tempo” do facebook. Só! Isso não significa que
eu não leia jornais e revistas, muito pelo contrário, a questão é que eu filtro
onde ler e o que ler. E a Zero Hora, com os seus “singelos” toques ideológicos,
não se coaduna com o que eu espero de uma imprensa comprometida com a tarefa
ética de informar.
Ultimamente,
tenho percebido um aumento constante de participações de um de seus colunistas
no embate, não contra o governo federal apenas, mas contra o Partido dos
Trabalhadores. Tenho visto (já bem disse onde e como) algumas frases soltas
desse jornalista, quase que diariamente, atacando, com cada vez mais vontade, o
PT e seus quadros políticos, em especial Lula e Dilma.
Hoje
me rendi e acabei lendo um de seus textos. O título é muito sugestivo, “o
melhor que foi feito foi o pior.” Exatamente, assim mesmo! E a cada linha, a cada
novo argumento, novo exemplo, eu me deparava com um jornalista/cronista à beira
de um ataque de nervos.
Ao
iniciar, ele tenta nos resgatar pelo coração e pela racionalidade. Queremos
fazer o melhor para os nossos filhos (ponto pacífico), mas, muitas vezes, não
nos damos conta da “complexidade” – e ele utiliza exatamente essa palavra – que
é a tarefa de fazer o melhor e, ao mesmo tempo, criar regras para que o empenho
desprendido não seja em vão e, com isso, acabar nos causando prejuízos futuros.
Muito
bem até aqui! Então o texto, que se inicia com esse drama familiar, se volta
contra o PT (sim! Exatamente contra o PT!). Uma primeira pergunta que, de
imediato, somos acometidos: qual a culpa que o PT tem na educação familiar do
filho do jornalista? Nenhuma! Afinal o texto nem quer tratar disso!
A
vontade do jornalista/cronista é, como já de costume, atacar o Partido dos
Trabalhadores. Então lá vai...
Segundo
ele, a melhor coisa que o PT fez em todos os anos de governo foi dar mais
facilidade às condições de acesso ao ensino superior. E sentencia: “mas não foi
a coisa certa.” Algumas breves questões aqui, para esse cidadão que escreve
diariamente em um dos jornais de maior circulação da região sul do país, que
tem como donos uma família que manda na comunicação no estado do Rio Grande do
Sul, a retirada de mais de 20 milhões de brasileiros da miséria passa
desapercebida ante aos seus olhos, bem como a criação de mais de 5 milhões de
empregos só no primeiro governo Dilma. Além disso, sem se ater as “complexidades”,
expressão utilizada pelo próprio autor, ele afirma categoricamente, determina,
julga, sentencia, que o PT não fez a coisa certa. Sem dar ao partido a mínima
condição de defesa, o jornalista/cronista, tal qual um juiz, condena, mas, sem
observar as práticas judiciais, não dá ao outro lado a condição ao debate de
ampla defesa.
Condenados,
o PT e o governo federal devem levar a “culpa” por terem facilitado o acesso de
pessoas ao ensino superior que antes nem podiam sonhar com uma faculdade. Condenados,
PT e governo federal carregam o peso de terem feito com que as universidades se
pintassem com as cores do Brasil. Condenados, PT e governo federal devem sofrer
as consequências de terem rompido com a lógica de que a filha da empregada
doméstica também deva ser doméstica, de que o filho do mecânico outra coisa não
será senão mecânico.
Claro
que ele coloca algo importante a ser pensado, cada vez mais parece estar
diminuindo a qualidade do ensino básico. E logo ele coloca a culpa em quem? No
PT, é claro! Mas o jornalista não leva a sério, e não quer levar, toda a
legislação da educação básica que organiza as competências do ensino básico.
Esse
jornalista sequer deva ter lido a Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996 que diz:
“Art.
10º - Os Estados incumbir-se-ão de:
...
VI
– assegurar o ensino fundamental e oferecer, com prioridade, o ensino médio.”
E
também:
“Art.
11 – Os Municípios incumbir-se-ão de:
...
V
– oferecer a educação infantil em creches e pré-escolas, e, com prioridade, o
ensino fundamental, permitida a atuação em outros níveis de ensino somente
quando estiverem atendidas plenamente as necessidade de sua área de competência e com recursos acima dos percentuais
mínimos vinculados pela Constituição Federal à manutenção e desenvolvimento do
ensino.” (grifo nosso).
A
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional deixa claro quais são as
competências de cada ente da federação, mas parece que o jornalista não quer
saber disso e vai logo jogando a culpa da queda no rendimento da educação básica
na conta do PT. Claro que o governo federal também deve fazer os seus
investimentos nessas áreas, mas a tarefa principal de controlar, melhorar,
qualificar, está fora de seu alcance, essas são políticas locais.
E
então vem a pérola: “Com boas escolas públicas, o país não precisa de cotas,
porque negros e pobres terão as mesmas chances que brancos e ricos.” Mais uma
vez ele foge da complexidade cujo qual se propunha a analisar. Por melhor que
seja a escola pública, por mais bem equipada que ela esteja, a educação não
consegue, sozinha, vencer as barreiras sociais e econômicas de um país.
Alegar
que um negro pobre terá as mesmas condições de um branco rico para entrar na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS -, por exemplo, é defender o
princípio da meritocracia, sem levar em consideração os obstáculos sociais que
o segundo não terá se comparado com o primeiro, por mais que ambos estejam na
mesma escola pública.
Enquanto
o branco rico, ao chegar em casa, terá todo um capital cultural a sua
disposição, o negro pobre mal terá tempo para fazer as suas tarefas de casa.
Enquanto o branco rico, ao chegar em casa, terá todas as próximas refeições
garantidas, o negro pobre pode ser que tenha feito a sua última refeição
reforçada do dia ainda na escola. Enquanto o branco rico, ao chegar em casa, terá
o acesso a internet liberada para pesquisas, trabalhos e lazer, o negro pobre
vai acabar utilizando um atlas antigo para resolver os trabalhos de geografia.
Por
melhor que seja a educação básica, ela só terá força de mudar os rumos da sociedade
se vier acompanhada de mais políticas públicas, de mais direitos. Isso é tratar
de forma complexa o que de fato é complexo.
E
antes de encerrar, o jornalista ainda resolve comparar os governos do PT aos governos
ditatoriais do Brasil, dizendo que o governo fez escolhas populistas e, para
salvar-se a si mesmo, resolveu jogar as pessoas umas contra as outras com um
discurso ideológico, o qual classifica como “balela”.
Ora,
jornalista. Balela quem traz é o senhor. Não há como comparar um governo de um
regime de exceção a qualquer que seja o governo democrático eleito pelo voto
popular. Realmente, o Brasil é para todos os brasileiros, como bem dizes, mas
em uma sociedade injusta, desigual e, historicamente, irresponsável, cada
classe, inevitavelmente, terá de defender aquilo que julga por direito.
Ora,
jornalista. Balela é essa sua tentativa estapafúrdia de querer desqualificar a
esquerda e a sua ideologia. Imprimindo, às pessoas, exatamente aquilo que os
seus patrões mais prezam: o liberalismo meritocrático.
Ora,
jornalista. Esses constantes ataques ao PT e aos governos Dilma e Lula, ao qual
o senhor se presta, é muito além de uma questão de opinião, é ideologia pura!
Bibliografia:
Coimbra,
David. David Coimbra: o melhor que foi
feito foi o pior. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/04/david-coimbra-o-melhor-que-foi-feito-foi-o-pior-4739357.html>
Acesso em: 17 de abr. de 2015.
Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf>
Acesso em: 17 de abr. de 2015.