sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A PEC 241 e o avanço do neoliberalismo no Brasil

Paulo de Oliveira dos Santos*

A eleição de 2014 que elegeu à Presidência da República Dilma Rousseff evidenciou, de forma nítida, a polarização política pela qual o Brasil passava. Para além de petistas e tucanos, a polarização se deu em relação ao projeto de país que estava em jogo.

Com leve vantagem em relação ao seu adversário, Dilma foi reeleita para governar o maior país da América Latina com apenas 51,64% dos votos válidos. Ou seja, de um lado estavam aqueles que ainda apostavam e desejavam um país com política desenvolvimentista, economicamente redistributivista, e de outro lado estavam aqueles que preferiam um Estado mais enxuto, com menos políticas sociais e com redução dos gastos públicos.

Inclusive, as campanhas eleitorais diziam isso. Dilma e o PT defendiam que o governo precisava investir ainda mais para continuar assegurando emprego e renda às famílias trabalhadoras. Aécio e o PSDB diziam que era preciso conter o gasto público para que o Estado fosse de fato eficiente.

Entretanto, a vitória de Dilma, nas urnas, não foi suficiente para garantir que, efetivamente, o programa eleito fosse garantido enquanto programa do governo.

A presidenta, ao analisar os rumos da economia, preferiu apostar em um ministro que pudesse realizar um grande ajuste fiscal bem aos moldes ortodoxos da escola de Chicado, a fim de melhorar a confiança do mercado em relação a política econômica.

Com isso, Dilma embaralhou o jogo político. Os seus eleitores passaram a criticar o seu governo, sem entender que a política conduzida não fazia parte do programa eleito, ou seja, era uma mudança na rota. Enquanto isso, o outro lado, por mais que tivesse as suas políticas atendidas, sem perceber, rejeitaram o governo, necessariamente, pelo fato de a chefe do Executivo ser Dilma Rousseff.

Ou seja, no acalorar da luta política que criou dois lados opostos, o governo Dilma saiu da rota do único grupo que a apoiava. Enquanto que este ficou no caminho por perder a referência política que o conduzia.

Logo, toda a política de conciliação das classes sociais empreendida por Lula a partir do seu governo chegou ao seu ápice ainda durante o período eleitoral de 2014. Todavia, o próprio PT não compreendeu o momento histórico e, mais uma vez, assim como em 2002 com a Carta ao Povo Brasileiro, migrou um pouco mais, agora com a flexão do governo, à direita [1].

Finalmente, sem apoio de nenhum dos lados, e tendo de enfrentar um processo de impeachment, o governo voltou a defender as pautas dos movimentos sociais e a dialogar com o conjunto da esquerda. Todavia, sendo este o Congresso Nacional mais conservador eleito desde 1964, o impedimento da presidenta eleita era algo esperado.

Com o afastamento de Dilma Rousseff, toda a claque política de Michel Temer pode assumir os rumos da política nacional e, sem o menor constrangimento, iniciar o maior processo de direitização brasileira. Ou melhor, avançar as políticas neoliberais com toda a força durante esses dois anos que ainda restam ao presidente usurpador [2].

Dessa forma, o governo Temer, tentando ainda se aproveitar desse esquentamento nos ânimos da população, flerta com o antipetismo a fim de dar crédito às suas políticas que retiram direitos e conquistas dos governos do PT.

Temer, com imenso apoio do Congresso Nacional conservador, consegue aprovar, sem dificuldades, o projeto que permite a exploração do pré-sal pelas empresas internacionais. Para além disso, Temer modifica a lógica do governo sem nenhum problema.

Seus aliados conseguem avançar com as pautas mais toscas possíveis. O tal projeto da “escola sem partido”, por exemplo, encontra cada vez mais força a partir do momento em que o Ministro da Educação, escolhido pelo presidente, faz oposição à educação popular. E, para piorar, o presidente da comissão que vai analisar a Medida Provisória da Reforma do Ensino Médio, na Câmara dos Deputados, é um dos líderes do movimento Escola sem Partido, deputado Izalci Lucas – PSDB.

Isto é, as forças políticas de direita, aproveitando o vácuo deixado pelo próprio PT, se articularam de tal forma que hoje definem os rumos do país. E mais do que isso, com o acirramento dos blocos políticos, tentam construir a sua hegemonia cultural a partir da velha luta moral contra a esquerda.

Agora, Michel Temer usa a PEC 241, a PEC da maldade, como um balão de ensaio para as verdadeiras reformas de morte, sobretudo à população mais pobre do Brasil.

A PEC 241 é proposta a fim de testar a força do governo no Congresso, e entre a população, para enfim conseguir aprovar a Reforma da Previdência, a Reforma Trabalhista, e mais algumas outras reformas que a elite econômica julgar necessárias para a instauração do capitalismo mais selvagem em terras brasileiras.

A PEC 241 ainda não é a pior das propostas de Michel Temer. E quanto menor for a resistência das ruas e do Parlamento, piores serão as que virão.

Ou as esquerdas, os movimentos sociais e os trabalhadores se unem para lutar contra o avanço do neoliberalismo, ou suas políticas nos atropelarão.




* Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFRGS e filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 2007.

[1]É bem verdade que o Partido dos Trabalhadores, principalmente por meio da Fundação Perseu Abramo, se posicionou de forma contrária ao ajuste fiscal promovido pelo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o que não garantiu que o governo Dilma fizesse o mesmo movimento de imediato.

[2] Ou até Michel Temer terminar todas as “reformas necessárias” e Gilmar Mendes, por meio de processo no TSE, impugnar a chapa majoritária de Dilma e Temer, de 2014, e, dessa forma, arranjar uma eleição indireta no Congresso Nacional para eleger um novo presidente, agora bondoso, e elegível em 2018, mas que terá "as mãos amarradas" pelo pacote de maldades aprovado pelo presidente anterior. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Programa de Governo - Sapucaia do Sul!

Sobre as oportunidades que a vida nos traz!

Tive a imensa alegria de coordenar a construção do Programa de Governo representado e defendido por Dr. Link, nosso candidato a prefeito em Sapucaia do Sul.


Nessa foto, estão presentes o professor de educação física e coordenador do curso na Unisinos, professor Ednaldo Pereira, e o cientista político da UFRGS, Luiz Marques. Ambos foram painelistas no último encontro que teve como tema: esporte, lazer e cultura.

Estou muito feliz com o resultado do processo, principalmente pelo nosso programa ter sido reconhecido nas urnas como o melhor projeto para Sapucaia seguir avançando.

#Gratidão!

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A Refundação do PT e a necessidade de construção de uma frente ampla de esquerda

Paulo de Oliveira dos Santos*

Desde 2005, ano da primeira grande crise do Partido dos Trabalhadores, com o Mensalão, setores do partido, como o movimento Mensagem ao Partido, o qual conta com a participação da corrente interna Democracia Socialista, reivindicam a tese da Refundação do PT, como algo premente no sentido de reorganizar a agência do partido.

Muito embora a tese seja defendida por intelectuais e quadros políticos de renome, como Paul Singer, Tarso Genro e Raul Pont, a corrente petista que compõe o campo majoritário da direção partidária em nível nacional, acabou, ao longo do tempo, suprimindo esse debate. Com isso, chegamos a um ponto em que, reconhecidamente, inclusive pelo ex-presidente Lula, “o PT tem se tornado cada vez mais um partido igual aos outros" [1].

Dessa forma, participamos das primeiras eleições municipais no período pós-golpe institucional. Fragilizados, o PT e o conjunto da esquerda, viram o golpe ser legitimado nas urnas a partir do crescimento do número de prefeituras comandadas pelos partidos que hoje ocupam o governo usurpador de Michel Temer.

E a partir daqui, qual será o caminho que o PT seguirá? Como se organizará diante do crescimento dos setores da direita e de grupos com práticas fascistas? E o conjunto da esquerda, tomará qual caminho?

Este artigo não se propõe a responder nenhuma das três questões acima apresentadas, mas tem o intuito de contribuir para o debate necessário de organização do PT e do conjunto da esquerda no Brasil.

É inegável que o governo Dilma vinha enfrentando altos índices de rejeição, como também é inegável que os governos Lula e a primeira metade do primeiro governo Dilma tiveram amplo apoio popular, exatamente por terem sido governos que retiraram milhões de pessoas das linhas de pobreza. Mas isso não foi o suficiente para que as pessoas passassem a confiar, majoritariamente, no PT, tanto que, na primeira oportunidade, estiveram ao lado do golpe. E na segunda oportunidade, elegeram o maior número de candidaturas aos executivos municipais dos partidos que, nacionalmente, estão em lados opostos ao PT (Gráfico 1): PMDB, PSDB, PSD e PP.

Gráfico 1:


Em quatro anos, o Partido dos Trabalhadores perdeu 374 prefeituras, enquanto que o PSDB e o PMDB aumentaram sua representação em 120 executivos municipais.

Ao que tudo indica, a luta “Fora Temer”, até aqui, tem sido derrotada por um contingente eleitoral que opta pelos partidos que se colocam frontalmente contrários ao PT e ao conjunto da esquerda.

Podemos citar algumas hipóteses que pudessem explicar esse fenômeno como, por exemplo, a marginalização do PT feita pela mídia, a espetacularização da Operação Lava Jato, etc. Mas, todas elas buscam tirar a culpa do partido. Ou seja, aceitar exclusivamente essas hipóteses é aceitar que “o inferno são outros”.

Culpar toda a conjuntura e isolar-se dela, não é correto. O PT cometeu e ainda comete erros. E continuará cometendo se não compreender que o sinal amarelo acendeu nas eleições de 2016. Isto é, está passando da hora do Partido dos Trabalhadores realizar a sua necessária autocrítica e, com isso, redefinir o seu rumo.

Ao longo da história, o PT deixou de ser um partido revolucionário para tornar-se um partido reformista. Tanto que, durante os governos Lula e Dilma, mesmo com a diminuição da pobreza, houve aumento da desigualdade, exatamente porque os ricos lucraram ainda mais com as taxas de juros elevadas pelo governo. Os governos do PT não mexeram no status quo, não quiseram ser revolucionários.

Dessa forma, o PT foi cedendo seu espaço à esquerda, por migrar ao centro em busca de alianças eleitorais que lhe garantissem a vitória nas urnas. O Partido dos Trabalhadores se tornou uma máquina de vencer eleições. Assim, a partir desse novo perfil, o PT se configurou em um novo partido, com uma nova práxis. O cientista político André Singer chega a dizer que o PT de Sion deu espaço ao PT do Anhembi, o que criou o partido da conciliação de classes [2].

O Partido dos Trabalhadores foi modificando a sua forma de fazer política. Reformas estruturantes foram deixadas de lado nos governos em todas as esferas. Politizar as massas já não era mais a tarefa primeira do PT e dos seus governos. Logo, o partido que mudou para melhor a vida de milhões de pessoas, contribuiu ativamente para o surgimento de uma cultura político-social contrária ao próprio partido.

A drástica redução do número de prefeituras ocupadas pelo PT, entre uma eleição e outra, expõe esse sentimento de abandono ao partido, muito bem. E o fato de os partidos que se colocam mais à direita terem aumentado o seu desempenho eleitoral ao Poder Executivo, é o que mais deve preocupar. Ou seja, toda a esquerda perdeu.

A partir dessa informação, na primeira eleição pós-golpe institucional, é que se mostra urgente a necessidade de construção de uma frente ampla de esquerda. Por mais difícil que pareça ser, unir a esquerda em torno de um inimigo comum, o avanço da direita, é algo que deve ser articulado, pois, mesmo nos locais onde o PT manteve a prefeitura, o resultado não nos parece tão positivo assim.

Em Sapucaia do Sul, o PT chegou a prefeitura pela primeira vez em 2008. De lá pra cá, por mais que tenha vencido todas as eleições que disputou, teve a sua votação para prefeito reduzida em mais de 15 mil votos (Gráfico 2). Ou seja, o número de eleitores na cidade aumenta, mas a votação do partido para governar a cidade diminui, mesmo que vencedora.

Além disso, as candidaturas do Partido dos Trabalhadores para a Câmara de Vereadores entre uma eleição e outra, com excessão das três candidaturas mais bem votadas em 2016, sofreram forte queda no número de votos (Gráfico 3, Anexo 1).

Gráfico 2:


Gráfico 3:


A redução dos votos das candidaturas a vereança complicou a estratégia eleitoral do partido, que acabou encerrando a eleição com duas cadeiras conquistadas para o Poder Legislativo, mesmo número de cadeiras do PMDB e do PP – este último aumentando a sua representatividade, de forma histórica, na Câmara Municipal.

Ou seja, o Partido dos Trabalhadores, em Sapucaia do Sul, mesmo vencendo as eleições, a cada pleito eleitoral tem diminuído, ainda que lentamente, a sua expressão na cidade (Gráfico 4). E o pior, esse espaço não tem sido ocupado pelo PSOL ou demais partidos que possam compor o campo da esquerda, mas sim pela direita representada, principalmente, no PP.

Gráfico 4:

É nesse sentido que reafirmamos a premente necessidade do PT realizar a sua autocrítica em relação a sua atuação política até o presente momento e com isso iniciar o seu processo de Refundação, definindo, então, ideologicamente e programaticamente a sua práxis e as suas alianças. Ou seja, para o Partido dos Trabalhadores se reencontrar com a esquerda, ele precisa dar um passo no sentido de reformulação da sua agência política e, assim, assumir a vanguarda dos movimentos sociais juntamente com o conjunto da esquerda.

Todavia, enquanto isso não acontecer, o Partido dos Trabalhadores caminhará rumo ao esvaziamento e apequenamento diante do período histórico em que está exposto.

Finalmente, penso que somente a construção de uma frente ampla de esquerda, em que o inimigo comum esteja bem definido, é capaz de modificar o atual cenário de crescimento das forças de direita e de criminalização da política, sobretudo da esquerda. E isso passa, invariavelmente, pelo movimento de Refundação do PT.




Anexo 1: Tabela de votação das candidaturas proporcionais do PT, em Sapucaia do Sul, 2012-2016.

Candidatos
2012
2016
Raquel
1231
1783
Adão do Calçado*
769
1625
Luciano
1255
1535
Eduardo Tito*
1205
912
Prof. Edson
1085
910
Wink
1026
856
Tita Nunes
1088
683
Marcio Daniel

667
Rubem Leo
708
578
Belmonte

418
Douglas Butzke

418
Nelsinho Metalúrgico

395
Claudinha*
374
350
Miriam Grisa

321
Lenara Michel

160
Márcia Chitolina
204
99
Link
2386

Prof. Adilpio
619

Gildo
525

Sergio Viero
522

Elvio
502

Sergio Teixeira
399

Luciano Rambo
356

Nelson Che
315

Nilton
213

Magda
149

Kenia
101

Maria Aparecida
96

Maria Helena
72

Tereza do Santos
21

PT - Legenda
2281
1542
Total
17502
13252
Thiago Batista**
1319

Fonte: TSE
*Candidaturas que concorreram em outros partidos em 2012.
**Candidato do PSDC, partido coligado na Proporcional com o PT em 2012.




* Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFRGS e filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 2007.
[1] “PT tem se tornado cada vez mais um partido igual aos outros”, lamenta Lula. Gazeta do Povo. Disponível em <http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/pt-tem-se-tornado-cada-vez-mais-um-partido-igual-aos-outros-lamenta-lula-ejokkst5x0ll63ia6wf4z7n0u> Acesso em 04 de outubro 2016.
[2] Singer, André Vitor. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo : Companhia das Letras, 2012.