quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O avanço das forças conservadoras no Brasil ou o fim do “Brasil sem miséria”

Paulo de Oliveira dos Santos*


Hoje eu conheci o Ângelo[1], um menino negro, magro, pequeno, de 13 anos de idade. Ângelo podia ser também Roberto, Tereza, João Guilherme, Ana, Wallyson, Sheron, ou outros tantos adolescentes, ou outras tantas crianças do Brasil.

Ângelo não estava brincando, nem estudando, nem correndo na rua. Ele estava sentado no meio fio da calçada, em frente ao banco, cuidando carros. O horário? Mais de vinte horas.

Fui abordado por ele enquanto entrava no banco. Ele sorria um sorriso largo. Me chamou de tio e me pediu umas moedas. Estava sujo, talvez por causa da chuva que havia caído há pouco. Parei para conversarmos.

Perguntei seu nome, sua idade e onde estudava. Ele me disse que estudava todos os dias pela manhã em determinada escola que fica próximo da casa onde mora com a avó.

Sobre a família, me respondeu que a mãe morreu há pouco mais de um ano. O pai? Não conheceu e não tinha um bom relacionamento com o padrasto. Por isso, ele e seus três irmãos foram morar com a avó. Ela não tinha conseguido receber o Bolsa Família ainda, mas estavam ansiosos pelo “cartão que ela vai receber” (sic). Então, como as coisas estão difíceis em casa, ele sai para cuidar carros e ajudar a avó.

Por algum tempo, parecia que havíamos nos libertado de histórias como essas, ao menos nas cidades com melhor índice de desenvolvimento humano. Mas, infelizmente, tem sido cada vez mais comum encontrarmos adolescentes, e até mesmo crianças, realizando algum tipo de trabalho nas ruas, nos trens, nas paradas de ônibus, etc.

Suas intenções, e eu poderia dizer que até mesmo as das suas famílias, são as melhores possíveis. Poder ajudar em casa, não passar fome, etc. Mas, mesmo assim, isso é desumano!

Crianças e adolescentes não devem estar nas ruas. Mas, desgraçadamente, é o que temos voltado a ver cada vez com mais frequência nas nossas cidades.

Após anos de investimentos públicos com políticas sociais, com programas de desenvolvimento humano, o presente prepara um futuro que tende a ser sombrio em nosso país.

Enquanto escrevo esse texto, o atual Presidente (usurpador) Michel Temer, janta com Senadores e Senadoras, gastando alta fortuna, a fim de garantir a aprovação de uma Proposta de Emenda Constitucional (a famigerada 241, que foi rebatizada como 55) que vai congelar os gastos públicos por 20 anos. Ou seja, se aprovada ainda em 2016, essa proposta valerá até 2036.

Enquanto escrevo esse texto, Ângelo e outros tantos adolescentes estão voltando às ruas para ajudar suas famílias em casa, pois não há mais possibilidade de futuro para eles.

Aquele país inclusivo, onde os mais pobres podiam sonhar em não morrer na miséria, em que o futuro parecia maravilhoso, está acabando lentamente. Primeiro foi a entrega do Pré-Sal às empresas privadas. Agora, o congelamento da fatia do orçamento que atende justamente aqueles e aquelas que mais precisam do Estado. Junto a isso, estão preparando ataques à previdência social e ao trabalho.

Isto é, primeiro estão atacando a infância e a adolescência (estão cumprindo o princípio constitucional da prioridade absoluta às crianças e aos adolescentes, só que ao contrário), depois, vão atacar os idosos e, por fim, também os trabalhadores.

Ora, o que vemos é que inevitavelmente estamos a caminho do constante desmantelamento dos direitos sociais. E isso já é real e palpável! Hoje, eu dei de cara com essa realidade indegesta. Mas também já havia me deparado com ela ontem e antes de ontem, em locais e situações diferentes.

Aquele Brasil bonito, colorido, inclusivo, está voltando a ser excludente. Está voltando a ser de um pequeno grupo de pessoas que dizia querer o seu país de volta.

Entretanto, a nossa atuação não pode, em momento algum, ser de subserviência. Nós, que sabemos todos os problemas que essas propostas nos acometerão, devemos seguir lutando contra essas medidas que têm sido impostas pelos setores mais conservadores de nossa sociedade.

Os conselhos municipais, as associações de moradores, os clubes de mães, as igrejas e as demais organizações não governamentais que desenvolvem importantes trabalhos na garantia e na proteção dos direitos humanos de crianças, adolescentes, idosos, LGBTTs, população negra, etc., devem se mobilizar. Devem fazer de seus espaços, verdadeiros espaços de construção coletiva, de debate, de proposição, de libertação.

Não podemos nos calar enquanto Ângelos, Clarissas, Marias, Deivids, etc., estão voltando às ruas por causa de uma elite que não aceitou dividir as vagas nas universidades, nos aviões, no futuro, com os mais pobres.

Retroceder, jamais!




* Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFRGS, presidente do Conselho Municipal de Assistência Social e conselheiro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Sapucaia do Sul.
[1] A fim de preservar a identidade do adolescente, e sua dignidade, será utilizado um nome fictício para denominá-lo.

domingo, 13 de novembro de 2016

Conselhos Municipais e democracia participativa


Paulo de Oliveira dos Santos[1]

O exercício da gestão pública tem exigido, cada vez mais, dos seus agentes, a necessidade de abertura ao diálogo com a sociedade, sobretudo em governos municipais em que a relação do governante com os eleitores é muito próxima.

O avanço das novas tecnologias é um dos grandes pontos que respondem sobre essa nova forma de interação e de relação. As redes sociais se tornaram grandes aliadas da população que exige melhorias no serviço público por meio de posts, entretanto essa interação descortina uma gama de demandas individuais reprimidas que são capazes de criar um cenário de caos no setor público. Logo, a criação de plataformas digitais em que o governo consiga represar essas demandas e, a partir daí, pensar em políticas públicas que ultrapassem a individualização dos problemas é algo cada vez mais imprescindível.

Nesse sentido, a agência dos conselhos municipais de políticas públicas e de direitos em um processo de cogestão entre sociedade civil e governo tem sido cada vez mais importante.

Os conselhos municipais são espaços de construção e monitoramento de políticas públicas, garantidos pela Constituição Federal de 1988. Seus assentos são destinados a membros do poder público e a representantes da sociedade civil que juntos devem constituir um amplo debate sobre determinada política.

Para tanto, as pessoas que compõem os conselhos devem ter conhecimento sobre a política pública a qual terão de incidir efetivamente. Assim, os conselheiros e as conselheiras dos conselhos de políticas públicas e de direitos devem estar em constante processo de aprendizado e de atualização tanto em relação a sua agência, quanto a política a qual tem de atuar.

Esse não é um processo fácil, pois exige disposição, tempo e cooperação dos conselheiros e conselheiras, bem como dos gestores os quais representam. Disposição para querer ir além do que já conhece; tempo para estar em constante atualização e aprendizado; cooperação entre conselheiro e gestor a fim de se organizar uma agência conjunta que denote o pensamento da instituição representada no conselho.

Esses três fatores fazem parte da agência do conselheiro e da conselheira tanto representante do governo, quanto da sociedade civil, pois, a atuação de ambos os representantes é uma tarefa para além da sua ação funcional. Ou seja, além de o indivíduo trabalhar em determinada secretaria de governo, ou em determinada instituição não governamental, também atua como representante desta em um conselho de políticas públicas ou de direitos. E, também por isso, sua atuação é encarada como relevante à sociedade.

Ora, o fato de auxiliar no processo de construção de política pública, monitorar seu desempenho e fiscalizar os investimentos públicos, sem que isso faça parte da sua atuação funcional e sem ter salário para isso, faz da agência do conselheiro e da conselheira algo de alta relevância para a comunidade em que vive.

Por isso que os governos que valorizam os conselhos instituídos, dão suporte, auxiliam no seu processo de estruturação, aceitam as suas deliberações plenárias, têm bom desempenho avaliativo.

Ora, como dito anteriormente, o exercício da gestão pública tem exigido dos seus agentes cada vez mais diálogo e transparência para com a sociedade – o soberano – que tem se mostrado disposto a participar nas democracias não só eleitoralmente, mas também durante o processo de governança.

Por isso que a atuação dos conselhos municipais é cada vez mais importante no sentido de garantir um diálogo efetivo entre governo e sociedade no processo de construção das políticas, bem como do seu monitoramento e avaliação.

Ademais, é importante que os conselhos, assim como as políticas, atuem de forma transversal. Ou seja, quanto mais as suas pautas puderem ser debatidas de forma ampla entre outros conselhos, mais o seu debate será efetivo no sentido de ir em busca do esgotamento da matéria.

Dessa forma, em Sapucaia do Sul, durante o último seminário de formação, realizado no mês de novembro, para conselheiros e conselheiras, surgiu a proposição de se construir um Fórum de Conselhos Municipais, experiência que já acontece em alguns outros municípios. Esse Fórum teria a função de aglutinar os debates dos conselhos, organizar uma agenda de formação, etc.

Para tanto, ainda durante o seminário, foi formada uma comissão composta por quatro pessoas, dois representantes da sociedade civil e dois governamentais, que terão a tarefa de pensar uma proposta de Fórum a ser apresentada ao governo municipal até o mês de dezembro.

Portanto, uma importante tarefa foi lançada, constituir o Fórum de Conselhos Municipais de Sapucaia do Sul de forma amplamente democrática a fim de se avançar ainda mais no processo de democracia participativa.








[1] Paulo  de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFRGS e compõe a Coordenação dos Conselhos Municipais em Sapucaia do Sul.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A PEC 241 e o avanço do neoliberalismo no Brasil

Paulo de Oliveira dos Santos*

A eleição de 2014 que elegeu à Presidência da República Dilma Rousseff evidenciou, de forma nítida, a polarização política pela qual o Brasil passava. Para além de petistas e tucanos, a polarização se deu em relação ao projeto de país que estava em jogo.

Com leve vantagem em relação ao seu adversário, Dilma foi reeleita para governar o maior país da América Latina com apenas 51,64% dos votos válidos. Ou seja, de um lado estavam aqueles que ainda apostavam e desejavam um país com política desenvolvimentista, economicamente redistributivista, e de outro lado estavam aqueles que preferiam um Estado mais enxuto, com menos políticas sociais e com redução dos gastos públicos.

Inclusive, as campanhas eleitorais diziam isso. Dilma e o PT defendiam que o governo precisava investir ainda mais para continuar assegurando emprego e renda às famílias trabalhadoras. Aécio e o PSDB diziam que era preciso conter o gasto público para que o Estado fosse de fato eficiente.

Entretanto, a vitória de Dilma, nas urnas, não foi suficiente para garantir que, efetivamente, o programa eleito fosse garantido enquanto programa do governo.

A presidenta, ao analisar os rumos da economia, preferiu apostar em um ministro que pudesse realizar um grande ajuste fiscal bem aos moldes ortodoxos da escola de Chicado, a fim de melhorar a confiança do mercado em relação a política econômica.

Com isso, Dilma embaralhou o jogo político. Os seus eleitores passaram a criticar o seu governo, sem entender que a política conduzida não fazia parte do programa eleito, ou seja, era uma mudança na rota. Enquanto isso, o outro lado, por mais que tivesse as suas políticas atendidas, sem perceber, rejeitaram o governo, necessariamente, pelo fato de a chefe do Executivo ser Dilma Rousseff.

Ou seja, no acalorar da luta política que criou dois lados opostos, o governo Dilma saiu da rota do único grupo que a apoiava. Enquanto que este ficou no caminho por perder a referência política que o conduzia.

Logo, toda a política de conciliação das classes sociais empreendida por Lula a partir do seu governo chegou ao seu ápice ainda durante o período eleitoral de 2014. Todavia, o próprio PT não compreendeu o momento histórico e, mais uma vez, assim como em 2002 com a Carta ao Povo Brasileiro, migrou um pouco mais, agora com a flexão do governo, à direita [1].

Finalmente, sem apoio de nenhum dos lados, e tendo de enfrentar um processo de impeachment, o governo voltou a defender as pautas dos movimentos sociais e a dialogar com o conjunto da esquerda. Todavia, sendo este o Congresso Nacional mais conservador eleito desde 1964, o impedimento da presidenta eleita era algo esperado.

Com o afastamento de Dilma Rousseff, toda a claque política de Michel Temer pode assumir os rumos da política nacional e, sem o menor constrangimento, iniciar o maior processo de direitização brasileira. Ou melhor, avançar as políticas neoliberais com toda a força durante esses dois anos que ainda restam ao presidente usurpador [2].

Dessa forma, o governo Temer, tentando ainda se aproveitar desse esquentamento nos ânimos da população, flerta com o antipetismo a fim de dar crédito às suas políticas que retiram direitos e conquistas dos governos do PT.

Temer, com imenso apoio do Congresso Nacional conservador, consegue aprovar, sem dificuldades, o projeto que permite a exploração do pré-sal pelas empresas internacionais. Para além disso, Temer modifica a lógica do governo sem nenhum problema.

Seus aliados conseguem avançar com as pautas mais toscas possíveis. O tal projeto da “escola sem partido”, por exemplo, encontra cada vez mais força a partir do momento em que o Ministro da Educação, escolhido pelo presidente, faz oposição à educação popular. E, para piorar, o presidente da comissão que vai analisar a Medida Provisória da Reforma do Ensino Médio, na Câmara dos Deputados, é um dos líderes do movimento Escola sem Partido, deputado Izalci Lucas – PSDB.

Isto é, as forças políticas de direita, aproveitando o vácuo deixado pelo próprio PT, se articularam de tal forma que hoje definem os rumos do país. E mais do que isso, com o acirramento dos blocos políticos, tentam construir a sua hegemonia cultural a partir da velha luta moral contra a esquerda.

Agora, Michel Temer usa a PEC 241, a PEC da maldade, como um balão de ensaio para as verdadeiras reformas de morte, sobretudo à população mais pobre do Brasil.

A PEC 241 é proposta a fim de testar a força do governo no Congresso, e entre a população, para enfim conseguir aprovar a Reforma da Previdência, a Reforma Trabalhista, e mais algumas outras reformas que a elite econômica julgar necessárias para a instauração do capitalismo mais selvagem em terras brasileiras.

A PEC 241 ainda não é a pior das propostas de Michel Temer. E quanto menor for a resistência das ruas e do Parlamento, piores serão as que virão.

Ou as esquerdas, os movimentos sociais e os trabalhadores se unem para lutar contra o avanço do neoliberalismo, ou suas políticas nos atropelarão.




* Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFRGS e filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 2007.

[1]É bem verdade que o Partido dos Trabalhadores, principalmente por meio da Fundação Perseu Abramo, se posicionou de forma contrária ao ajuste fiscal promovido pelo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o que não garantiu que o governo Dilma fizesse o mesmo movimento de imediato.

[2] Ou até Michel Temer terminar todas as “reformas necessárias” e Gilmar Mendes, por meio de processo no TSE, impugnar a chapa majoritária de Dilma e Temer, de 2014, e, dessa forma, arranjar uma eleição indireta no Congresso Nacional para eleger um novo presidente, agora bondoso, e elegível em 2018, mas que terá "as mãos amarradas" pelo pacote de maldades aprovado pelo presidente anterior. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Programa de Governo - Sapucaia do Sul!

Sobre as oportunidades que a vida nos traz!

Tive a imensa alegria de coordenar a construção do Programa de Governo representado e defendido por Dr. Link, nosso candidato a prefeito em Sapucaia do Sul.


Nessa foto, estão presentes o professor de educação física e coordenador do curso na Unisinos, professor Ednaldo Pereira, e o cientista político da UFRGS, Luiz Marques. Ambos foram painelistas no último encontro que teve como tema: esporte, lazer e cultura.

Estou muito feliz com o resultado do processo, principalmente pelo nosso programa ter sido reconhecido nas urnas como o melhor projeto para Sapucaia seguir avançando.

#Gratidão!

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A Refundação do PT e a necessidade de construção de uma frente ampla de esquerda

Paulo de Oliveira dos Santos*

Desde 2005, ano da primeira grande crise do Partido dos Trabalhadores, com o Mensalão, setores do partido, como o movimento Mensagem ao Partido, o qual conta com a participação da corrente interna Democracia Socialista, reivindicam a tese da Refundação do PT, como algo premente no sentido de reorganizar a agência do partido.

Muito embora a tese seja defendida por intelectuais e quadros políticos de renome, como Paul Singer, Tarso Genro e Raul Pont, a corrente petista que compõe o campo majoritário da direção partidária em nível nacional, acabou, ao longo do tempo, suprimindo esse debate. Com isso, chegamos a um ponto em que, reconhecidamente, inclusive pelo ex-presidente Lula, “o PT tem se tornado cada vez mais um partido igual aos outros" [1].

Dessa forma, participamos das primeiras eleições municipais no período pós-golpe institucional. Fragilizados, o PT e o conjunto da esquerda, viram o golpe ser legitimado nas urnas a partir do crescimento do número de prefeituras comandadas pelos partidos que hoje ocupam o governo usurpador de Michel Temer.

E a partir daqui, qual será o caminho que o PT seguirá? Como se organizará diante do crescimento dos setores da direita e de grupos com práticas fascistas? E o conjunto da esquerda, tomará qual caminho?

Este artigo não se propõe a responder nenhuma das três questões acima apresentadas, mas tem o intuito de contribuir para o debate necessário de organização do PT e do conjunto da esquerda no Brasil.

É inegável que o governo Dilma vinha enfrentando altos índices de rejeição, como também é inegável que os governos Lula e a primeira metade do primeiro governo Dilma tiveram amplo apoio popular, exatamente por terem sido governos que retiraram milhões de pessoas das linhas de pobreza. Mas isso não foi o suficiente para que as pessoas passassem a confiar, majoritariamente, no PT, tanto que, na primeira oportunidade, estiveram ao lado do golpe. E na segunda oportunidade, elegeram o maior número de candidaturas aos executivos municipais dos partidos que, nacionalmente, estão em lados opostos ao PT (Gráfico 1): PMDB, PSDB, PSD e PP.

Gráfico 1:


Em quatro anos, o Partido dos Trabalhadores perdeu 374 prefeituras, enquanto que o PSDB e o PMDB aumentaram sua representação em 120 executivos municipais.

Ao que tudo indica, a luta “Fora Temer”, até aqui, tem sido derrotada por um contingente eleitoral que opta pelos partidos que se colocam frontalmente contrários ao PT e ao conjunto da esquerda.

Podemos citar algumas hipóteses que pudessem explicar esse fenômeno como, por exemplo, a marginalização do PT feita pela mídia, a espetacularização da Operação Lava Jato, etc. Mas, todas elas buscam tirar a culpa do partido. Ou seja, aceitar exclusivamente essas hipóteses é aceitar que “o inferno são outros”.

Culpar toda a conjuntura e isolar-se dela, não é correto. O PT cometeu e ainda comete erros. E continuará cometendo se não compreender que o sinal amarelo acendeu nas eleições de 2016. Isto é, está passando da hora do Partido dos Trabalhadores realizar a sua necessária autocrítica e, com isso, redefinir o seu rumo.

Ao longo da história, o PT deixou de ser um partido revolucionário para tornar-se um partido reformista. Tanto que, durante os governos Lula e Dilma, mesmo com a diminuição da pobreza, houve aumento da desigualdade, exatamente porque os ricos lucraram ainda mais com as taxas de juros elevadas pelo governo. Os governos do PT não mexeram no status quo, não quiseram ser revolucionários.

Dessa forma, o PT foi cedendo seu espaço à esquerda, por migrar ao centro em busca de alianças eleitorais que lhe garantissem a vitória nas urnas. O Partido dos Trabalhadores se tornou uma máquina de vencer eleições. Assim, a partir desse novo perfil, o PT se configurou em um novo partido, com uma nova práxis. O cientista político André Singer chega a dizer que o PT de Sion deu espaço ao PT do Anhembi, o que criou o partido da conciliação de classes [2].

O Partido dos Trabalhadores foi modificando a sua forma de fazer política. Reformas estruturantes foram deixadas de lado nos governos em todas as esferas. Politizar as massas já não era mais a tarefa primeira do PT e dos seus governos. Logo, o partido que mudou para melhor a vida de milhões de pessoas, contribuiu ativamente para o surgimento de uma cultura político-social contrária ao próprio partido.

A drástica redução do número de prefeituras ocupadas pelo PT, entre uma eleição e outra, expõe esse sentimento de abandono ao partido, muito bem. E o fato de os partidos que se colocam mais à direita terem aumentado o seu desempenho eleitoral ao Poder Executivo, é o que mais deve preocupar. Ou seja, toda a esquerda perdeu.

A partir dessa informação, na primeira eleição pós-golpe institucional, é que se mostra urgente a necessidade de construção de uma frente ampla de esquerda. Por mais difícil que pareça ser, unir a esquerda em torno de um inimigo comum, o avanço da direita, é algo que deve ser articulado, pois, mesmo nos locais onde o PT manteve a prefeitura, o resultado não nos parece tão positivo assim.

Em Sapucaia do Sul, o PT chegou a prefeitura pela primeira vez em 2008. De lá pra cá, por mais que tenha vencido todas as eleições que disputou, teve a sua votação para prefeito reduzida em mais de 15 mil votos (Gráfico 2). Ou seja, o número de eleitores na cidade aumenta, mas a votação do partido para governar a cidade diminui, mesmo que vencedora.

Além disso, as candidaturas do Partido dos Trabalhadores para a Câmara de Vereadores entre uma eleição e outra, com excessão das três candidaturas mais bem votadas em 2016, sofreram forte queda no número de votos (Gráfico 3, Anexo 1).

Gráfico 2:


Gráfico 3:


A redução dos votos das candidaturas a vereança complicou a estratégia eleitoral do partido, que acabou encerrando a eleição com duas cadeiras conquistadas para o Poder Legislativo, mesmo número de cadeiras do PMDB e do PP – este último aumentando a sua representatividade, de forma histórica, na Câmara Municipal.

Ou seja, o Partido dos Trabalhadores, em Sapucaia do Sul, mesmo vencendo as eleições, a cada pleito eleitoral tem diminuído, ainda que lentamente, a sua expressão na cidade (Gráfico 4). E o pior, esse espaço não tem sido ocupado pelo PSOL ou demais partidos que possam compor o campo da esquerda, mas sim pela direita representada, principalmente, no PP.

Gráfico 4:

É nesse sentido que reafirmamos a premente necessidade do PT realizar a sua autocrítica em relação a sua atuação política até o presente momento e com isso iniciar o seu processo de Refundação, definindo, então, ideologicamente e programaticamente a sua práxis e as suas alianças. Ou seja, para o Partido dos Trabalhadores se reencontrar com a esquerda, ele precisa dar um passo no sentido de reformulação da sua agência política e, assim, assumir a vanguarda dos movimentos sociais juntamente com o conjunto da esquerda.

Todavia, enquanto isso não acontecer, o Partido dos Trabalhadores caminhará rumo ao esvaziamento e apequenamento diante do período histórico em que está exposto.

Finalmente, penso que somente a construção de uma frente ampla de esquerda, em que o inimigo comum esteja bem definido, é capaz de modificar o atual cenário de crescimento das forças de direita e de criminalização da política, sobretudo da esquerda. E isso passa, invariavelmente, pelo movimento de Refundação do PT.




Anexo 1: Tabela de votação das candidaturas proporcionais do PT, em Sapucaia do Sul, 2012-2016.

Candidatos
2012
2016
Raquel
1231
1783
Adão do Calçado*
769
1625
Luciano
1255
1535
Eduardo Tito*
1205
912
Prof. Edson
1085
910
Wink
1026
856
Tita Nunes
1088
683
Marcio Daniel

667
Rubem Leo
708
578
Belmonte

418
Douglas Butzke

418
Nelsinho Metalúrgico

395
Claudinha*
374
350
Miriam Grisa

321
Lenara Michel

160
Márcia Chitolina
204
99
Link
2386

Prof. Adilpio
619

Gildo
525

Sergio Viero
522

Elvio
502

Sergio Teixeira
399

Luciano Rambo
356

Nelson Che
315

Nilton
213

Magda
149

Kenia
101

Maria Aparecida
96

Maria Helena
72

Tereza do Santos
21

PT - Legenda
2281
1542
Total
17502
13252
Thiago Batista**
1319

Fonte: TSE
*Candidaturas que concorreram em outros partidos em 2012.
**Candidato do PSDC, partido coligado na Proporcional com o PT em 2012.




* Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFRGS e filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 2007.
[1] “PT tem se tornado cada vez mais um partido igual aos outros”, lamenta Lula. Gazeta do Povo. Disponível em <http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/pt-tem-se-tornado-cada-vez-mais-um-partido-igual-aos-outros-lamenta-lula-ejokkst5x0ll63ia6wf4z7n0u> Acesso em 04 de outubro 2016.
[2] Singer, André Vitor. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo : Companhia das Letras, 2012.