terça-feira, 31 de março de 2015

Protestos nacionais. Um olhar um pouco mais apurado.

Introdução

O ano de 2015 deu início ao segundo mandato da Presidenta Dilma, o que não significa que ela tenha tomado posse com uma larga aceitação nacional. O acirramento entre PT e PSDB, durante a eleição presidencial, não cessou com a apuração dos votos, pelo contrário, as ruas continuaram apresentando sinais visíveis do choque entre as duas legendas.

Além disso, alguns movimentos de lideranças do PSDB, concomitante a arranjos, mal aceitos pela população, do governo que por hora terminava, aliado, ainda, as divulgações seletivas da imprensa sobre a operação Lava Jato, só fizeram insuflar ainda mais a disputa que estava longe de acabar. Com isso, a insatisfação de uma massa passava a ganhar corpo e, até mesmo, razões de ser.

Acreditamos que esses sejam alguns pontos capazes de nos ajudar a montar um cenário que nos permita buscar uma compreensão, de certa forma, inicial do que vem acontecendo.

Comparando dados

No início da campanha eleitoral, no período do surgimento da candidatura de Marina Silva, a presidenta Dilma Rousseff, então candidata à reeleição, teve uma queda na aprovação do seu governo. Segundo o instituto Data Folha, o governo Dilma era avaliado, por 32% da população com idade eleitoral, como ótimo ou bom. Ainda segundo o Data Folha, a presidenta fechou o período eleitoral com a mesma avaliação que fecharia o seu primeiro mandato, 42% de ótimo ou bom.

42% como avaliação de ótimo ou bom, não é um número baixo na avaliação. Mas, como bem disse o cientista político Alberto Carlos Almeida, autor dos livros “A cabeça do brasileiro” e “A cabeça do eleitor”, ao programa Manhattan Connection, da Globo News, é natural que, após a eleição, o governo tenha uma queda na popularidade (assista ao vídeo aqui). Durante o período eleitoral, por um pouco mais de 3 meses, ao considerarmos o segundo turno, o governo está diariamente sendo apresentado às pessoas. O governo está, durante esse período, constantemente sendo colocado à prova e mostrando realizações. O governo se torna um ente presente na casa das pessoas.

Já, com o fim das eleições, o governo volta as suas atividades normais. Sai da televisão e volta a construir a sua rotina, com isso, aparentemente, “sai da vida” daqueles que, durante todo o processo eleitoral, conviveram com os projetos e conquistas apresentados diretamente pela “chefe” do governo. Sendo assim, de forma lógica, a avaliação do governo passa a ter uma retração, diminui.

Agora, voltando aos dados do instituto Data Folha, em fevereiro de 2015, dois meses após ter fechado o primeiro governo com 42% na avaliação de ótimo ou bom, o governo Dilma demonstra uma queda de 19% na avaliação, chegando, assim, a taxa mais baixa de aprovação do seu governo – 23% dos entrevistados consideram o governo Dilma ótimo ou bom.

A pergunta que podemos fazer aqui é: o que leva o governo a ter uma queda tão acentuada num espaço de tempo de menos de dois meses?

Vamos analisar os dados apresentados pelo instituto Data Folha fazendo um cruzamento entre os meses que o governo registra uma queda acentuada na sua avaliação, com o respectivo mês de avaliação anterior.


Na tabela acima, podemos notar que, segundo os dados apresentados pelas pesquisas, o governo Dilma chegou a ter boas taxas de aprovação. Em maio de 2013, por exemplo, o governo chegou a ser considerado ótimo ou bom para 57% dos entrevistados. Mas o que mais chama a atenção, é a forma como o governo, na pesquisa imediatamente subsequente, tem uma queda tão grande na sua aprovação.

Voltando a pesquisa de maio de 2013, mês imediatamente anterior às jornadas de junho de 2013[1] e comparando com o mês crítico – junho de 2013 – temos uma queda na taxa de ótimo ou bom de 27%.

Agora, quando comparamos os meses de dezembro de 2014 – último mês do primeiro mandato da presidenta Dilma – e fevereiro de 2015 – primeira pesquisa realizada no novo governo pelo instituto Data Folha – temos uma queda percentual de 19% na taxa de ótimo ou bom.

Estranhamente, um governo que não vinha mal avaliado, em apenas 1 mês se torna um grande problema para as pessoas. Estranhamente, boa parte daqueles que aprovavam o governo Dilma, de um mês a outro, passa a reprová-lo.

Não queremos aqui isentar o governo das suas “culpas”, mas, também, precisamos fazer o exercício de trazer à tona um pouco mais de complexidade para esse caso.

Não iremos (até porque não teremos tempo) tratar de forma aprofundada as possíveis causas dessa queda abrupta nas taxas de ótimo ou bom do governo Dilma. O que nos propomos a fazer é abrir um pouco mais o leque para esse debate permitindo que novos pontos de vista sejam apresentados e debatidos.

Possíveis causas da queda

Como apresentado no vídeo acima, o cientista político Alberto Carlos Almeida afirma que é normal que o governo diminua a sua taxa de ótimo ou bom logo após a sua reeleição. Mas, em contrapartida, uma queda de 19% é um tanto quanto exagerada se quisermos mantê-la a fim de dar créditos à teoria já mencionada.

Isso não significa que podemos, ou que devemos, rechaçá-la. Não! Muito provavelmente ela faça parte da uma provável explicação a que nos propomos apresentar.

Mas, neste momento, queremos apresentar alguns novos dados divulgados pelo Manchetômetro[2].



Na tabela acima, temos a comparação de manchetes de jornais apresentadas pelo jornal televisivo de maior audiência no Brasil, o Jornal Nacional da Rede Globo.

Segundo os pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), entre 28 de outubro de 2014 e 03 de janeiro de 2015, o referido telejornal não apresentou nenhuma manchete favorável a presidenta Dilma Rousseff, no período de 01 de fevereiro de 2015 à 07 de fevereiro, a presidenta também não contou com nenhuma manchete positiva a seu favor. E, entre 15 de março a 21 de março, a presidente teve apenas uma única manchete positiva.

Ao contrário disso, duas manchetes negativas povoaram o Jornal Nacional entre 28 de outubro de 2014 e 03 de janeiro de 2015. Entre 01 de fevereiro a 7 de fevereiro de 2015, seis manchetes negativas à presidenta Dilma Rousseff são apresentadas no telejornal – perfazendo uma média de uma manchete negativa por edição. E entre 15 a 21 de março, há uma retração para duas manchetes.

Nesse mesmo período, as manchetes neutras oscilam entre nove, cinco e oito respectivamente.

Estamos apresentando aqui somente manchetes relacionadas diretamente à figura da presidenta Dilma Rousseff que foram noticiadas pelo Jornal Nacional. Não estamos apresentando as análises feitas sobre as manchetes dos maiores jornais impressos de circulação nacional.

Sobre os dados das manchetes contrárias apresentadas pelo Jornal Nacional sobre os partidos políticos, percebemos que o PT é o partido que tem liderado a lista de manchetes contrárias (chegou a ter, entre 01 de fevereiro de 2015 a 07 de fevereiro, doze manchetes negativas, um total de duas manchetes por edição) enquanto o PSDB é o partido que está por último nessa lista (oscilou várias semanas entre zero e uma manchete e, em apenas uma única semana, alcançou cinco manchetes, teto máximo do PSDB).


Importante destacar que mesmo com o salto de manchetes negativas apresentadas no Jornal Nacional sobre o PMDB e PSDB, o PT é quem continua liderando a lista de manchetes negativas do maior telejornal do Brasil.

Breves conclusões

Depois de analisar os dados do instituto Data Folha e do Manchetômetro, podemos destacar que, tanto a presidenta Dilma quanto o seu partido, o PT, estão atravessando uma batalha muito forte de aceitação e de comunicação.

Poderíamos inverter. Tanto Dilma, quanto o PT, estão perdendo a batalha da comunicação, por isso a aceitação do governo e do partido tem diminuído.

Dilma Rousseff tem sido constantemente atacada em pleno horário nobre da televisão brasileira pelo âncora mais famoso do Brasil, Willian Bonner, e não tem conseguido reagir a esses ataques. O PT, da mesma forma.

Podemos aceitar a teoria do cientista político Alberto Carlos Almeida de que após a reeleição todo governo tende a diminuir a sua taxa de aceitação, mas não podemos negar que a constante cobertura midiática que afronta diretamente a imagem da presidenta Dilma e do seu partido, tem papel principal na derrubada das suas taxas de ótimo ou bom.

Como dissemos anteriormente, não podemos negar o fato de que o governo tem, em grande parte, culpa ao editar Medidas Provisórias impopulares, ao aumentar impostos, ao nomear um Ministro da Fazenda com ideias contrárias à ideologia de esquerda, etc.. Mas, ao nosso entendimento, nada disso teria ampla força para derrubar, em apenas um mês, as taxas de aprovação do governo de forma tão abrupta quanto o ocorrido nessas duas faixas da amostra (junho de 2013 e fevereiro de 2015).

Não nos pretendemos, aqui, encerrar o debate com uma fórmula pronta, pelo contrário, com essas conclusões queremos dar condições para que se possa fazer um profundo debate, inclusive sobre a regulação econômica da imprensa, que é o que mais tem irritado os donos dos grandes jornais do Brasil.



Bibliografia:

Manchetômetro. Dilma Rousseff. Disponível em: <http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015/cobertura-2015-dilma-rousseff/> Acesso em 30 de março de 2015.

Manchetômetro. Partidos. Disponível em: <http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015/cobertura-2015-partidos/> Acesso em 30 de março de 2015.

Data Folha. Aprovação a governo Dilma Rousseff cai, e reprovação a petista dispara. Disponível em: <http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/avaliacaodegoverno/presidente/dilma/indice-1.shtml> Acesso em 30 de março de 2015.






[1] Após protestos do Bloco de Lutas em Porto Alegre cobrando o passe livre nas passagens de ônibus municipais, o movimento pela redução da passagem se torna nacional com a adesão de vários jovens e movimentos sociais em todo o país. Além disso, com a proximidade da Copa do Mundo, com a violação de direitos das comunidades mais pobres muitas vezes ocorridas nas obras para o evento mundial, e a forte repressão policial, acabam fazendo com que durante a realização da Copa das Confederações no Brasil, aconteçam as chamadas Jornadas de Junho, que ficou caracterizado por significativos protestos na luta por mais direitos. 
[2] Website de acompanhamento da cobertura midiática, organizado por cientistas políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

quarta-feira, 11 de março de 2015

Dia Internacional da Mulher e a constante luta das mulheres

Mais um dia 08 de março chegou e passou e, como já é de costume, as floriculturas se encheram de homens e se esvaziaram de rosas. Seria tão lindo, se não fosse tão trágico!


Muitos foram os companheiros, maridos, noivos, namorados, filhos que se apressaram para levar para casa aquele belo botão vermelho de uma rosa que fosse capaz de demonstrar o quanto aquela mulher lhe é importante. Nada contra o romantismo – adoro oferecer flores para a minha namorada com uma frequência mensal. O que nos leva à reflexão nesse ato é que um importante dia de luta das mulheres por conquistas de direitos tem dado lugar a um romantismo, por vezes, barato!

Há quem diga que o discurso sobre o machismo impregnado, institucionalizado, na sociedade já encheu o saco. Há, inclusive, pessoas que negam a existência do machismo. Há quem diga que o machismo só existe na cabeça de quem “se diz” oprimida. Deve ser na cabeça mesmo, ou melhor, no corpo inteiro! Afinal, quantas são as mulheres que, em pleno século XXI, são objetificadas por causa do seu corpo? Quantos são os companheiros, noivos, namorados, que ainda se acham donos do corpo daquelas que eles têm como “suas” mulheres? Quantas são as mulheres que são violentadas sexualmente no seu lar, por aqueles homens que acham que estão no direito de decidirem quando irão ter uma relação sexual sem se importar com a vontade e a satisfação da parceira? Quantas são as mulheres que apanham caladas dentro de casa? Quantas são as mulheres que são estupradas na rua e ainda saem com o rótulo de “mulher fácil” por causa da roupa curta, ou justa, que vestia? Quantas são as mulheres que recebem salário menor do que os homens? Quantas são as mulheres em posições de destaque na sociedade, nas universidades, no campo da ciência? Quantas são as mulheres...

Talvez você que está lendo este artigo, esteja achando que eu estou exagerando, ou fazendo “tempestade em copo d’água”. Mas eu quero trazer à tona, como argumentos, alguns breves casos.

No dia 25 de fevereiro de 2015, o Programa Agora é Tarde, apresentado pelo polêmico humorista Rafinha Bastos, reprisou uma entrevista com o “célebre” ator pornô (?) Alexandre Frota, transmitida pela primeira vez em maio de 2014. Nessa entrevista, o ator descreve um estupro realizado por ele a uma “Mãe de Santo”. De acordo com Alexandre Frota, a mulher chegou a desmaiar tamanha a pressão que ele impôs sobre ela (veja a entrevista na íntegra aqui). Resultado, a plateia o aplaudiu no final da descrição!

Outro caso. No final do ano de 2014, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP – RJ), subiu a tribuna e, no auge da sua sapiência de parlamentar, declarou que não estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT – RS) pelo fato dela não merecer. Isso é um choque, afinal, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA – 26% dos brasileiros acreditam que mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas!

Outro caso, mais uma do deputado federal Jair Bolsonaro. Em uma entrevista ao Jornal Zero Hora, do grupo RBS, o deputado disse que a mulher tem que ganhar menos do que o homem porque ela engravida. Segundo ele, uma mulher que engravida atrapalha o sistema produtivo de uma empresa, por isso merece ganhar menor salário do que o homem.

Outro caso, e vou parar neste. Normalmente, em uma discussão ou debate, quando um dos lados é uma mulher, ela, normalmente, é rebaixada na questão do gênero antes de qualquer outra argumentação. Durante a campanha presidencial de 2014, por exemplo, quantas vezes o senador, e então candidato, Aécio Neves, virou sua artilharia contra as candidatas Luciana Genro e Dilma Rousseff atacando exatamente o fato delas serem mulheres? Quantas vezes o senador apontou o dedo indicador contra elas utilizando a palavra “leviana”, a fim de reverberar a máxima de que as mulheres são fofoqueiras e mentirosas? Ou então, em outros momentos, quantas vezes a presidenta Dilma Rousseff foi ofendida com palavras duras, como “vagabunda”, “piranha”, “machorra”, “mal c...”, etc., ao invés de ser questionada quanto ao projeto político que apresenta? Forçando uma desclassificação pessoal de gênero e não técnica.

No Brasil do século XXI, as mulheres continuam sendo atacadas, ofendidas, desmoralizadas, violentadas, normalmente por aqueles românticos do dia 08 de março.

A luta das mulheres não cessou com a conquista do voto ou qualquer outro tipo de direito conquistado. A luta das mulheres é constante!

Ainda hoje, após o expediente de trabalho, a mulher volta para casa para cumprir sua dupla ou tripla jornada de trabalho, como mãe e dona de casa. A cozinha ainda é um ambiente dado às mulheres, mesmo elas cumprindo exaustivas jornadas de 8 horas de trabalho. A educação dos filhos, também é jogada somente no seu colo, como se elas fossem as únicas responsáveis pelas crianças. E ao chegar a noite, ainda devem estar limpas, cheirosas, depiladas e dispostas!

Por isso, muito mais do que romantismo no dia 08 de março de cada ano, essa data nos convida a refletir e a respeitar a luta das mulheres. Uma luta que, mesmo em condições adversas, vem sendo travada na nossa sociedade. Uma luta por direitos, não por privilégios!

Neste dia, guarde as suas rosas, ofereça o seu respeito!



Bibliografia

Revista Forum. Band pode ser responsabilizada pela entrevista de Alexandre Frota. Disponível em: <http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/03/band-pode-ser-responsabilizada-pela-entrevista-de-alexandre-frota/>  Acesso em 10 de março de 2015.

Época. A culpa é delas. É o que pensam os brasileiros sobre a violência contra a mulher. Disponível em: <http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/03/b-culpa-e-delasb-e-o-que-pensam-os-brasileiros-sobre-violencia-contra-mulher.html> Acesso em 10 de março de 2015.

Sul21. Jair Bolsonaro diz que mulher deve ganhar salário menor porque engravida. Disponível em: < http://www.sul21.com.br/jornal/jair-bolsonaro-diz-que-mulher-deve-ganhar-salario-menor-porque-engravida/> Acesso em 10 de março de 2015.