Introdução
O ano de 2015 deu início ao segundo mandato
da Presidenta Dilma, o que não significa que ela tenha tomado posse com uma larga
aceitação nacional. O acirramento entre PT e PSDB, durante a eleição
presidencial, não cessou com a apuração dos votos, pelo contrário, as ruas
continuaram apresentando sinais visíveis do choque entre as duas legendas.
Além disso, alguns movimentos de lideranças
do PSDB, concomitante a arranjos, mal aceitos pela população, do governo que
por hora terminava, aliado, ainda, as divulgações seletivas da imprensa sobre a
operação Lava Jato, só fizeram insuflar ainda mais a disputa que estava longe
de acabar. Com isso, a insatisfação de uma massa passava a ganhar corpo e, até
mesmo, razões de ser.
Acreditamos que esses sejam alguns pontos
capazes de nos ajudar a montar um cenário que nos permita buscar uma
compreensão, de certa forma, inicial do que vem acontecendo.
Comparando
dados
No início da campanha eleitoral, no período do
surgimento da candidatura de Marina Silva, a presidenta Dilma Rousseff, então
candidata à reeleição, teve uma queda na aprovação do seu governo. Segundo o
instituto Data Folha, o governo Dilma era avaliado, por 32% da população com
idade eleitoral, como ótimo ou bom. Ainda segundo o Data Folha, a presidenta
fechou o período eleitoral com a mesma avaliação que fecharia o seu primeiro
mandato, 42% de ótimo ou bom.
42% como avaliação de ótimo ou bom, não é um
número baixo na avaliação. Mas, como bem disse o cientista político Alberto
Carlos Almeida, autor dos livros “A cabeça do brasileiro” e “A cabeça do
eleitor”, ao programa Manhattan Connection, da Globo News, é natural que, após
a eleição, o governo tenha uma queda na popularidade (assista ao vídeo aqui).
Durante o período eleitoral, por um pouco mais de 3 meses, ao considerarmos o
segundo turno, o governo está diariamente sendo apresentado às pessoas. O
governo está, durante esse período, constantemente sendo colocado à prova e
mostrando realizações. O governo se torna um ente presente na casa das pessoas.
Já, com o fim das eleições, o governo volta
as suas atividades normais. Sai da televisão e volta a construir a sua rotina,
com isso, aparentemente, “sai da vida” daqueles que, durante todo o processo
eleitoral, conviveram com os projetos e conquistas apresentados diretamente
pela “chefe” do governo. Sendo assim, de forma lógica, a avaliação do governo
passa a ter uma retração, diminui.
Agora, voltando aos dados do instituto Data
Folha, em fevereiro de 2015, dois meses após ter fechado o primeiro governo com
42% na avaliação de ótimo ou bom, o governo Dilma demonstra uma queda de 19% na
avaliação, chegando, assim, a taxa mais baixa de aprovação do seu governo – 23%
dos entrevistados consideram o governo Dilma ótimo ou bom.
A pergunta que podemos fazer aqui é: o que
leva o governo a ter uma queda tão acentuada num espaço de tempo de menos de dois
meses?
Vamos analisar os dados apresentados pelo
instituto Data Folha fazendo um cruzamento entre os meses que o governo
registra uma queda acentuada na sua avaliação, com o respectivo mês de
avaliação anterior.
Na tabela acima, podemos notar que, segundo
os dados apresentados pelas pesquisas, o governo Dilma chegou a ter boas taxas
de aprovação. Em maio de 2013, por exemplo, o governo chegou a ser considerado
ótimo ou bom para 57% dos entrevistados. Mas o que mais chama a atenção, é a
forma como o governo, na pesquisa imediatamente subsequente, tem uma queda tão
grande na sua aprovação.
Voltando a pesquisa de maio de 2013, mês imediatamente anterior às jornadas de junho de 2013[1] e comparando com o mês crítico – junho de 2013 – temos uma queda na taxa de ótimo ou bom de 27%.
Agora, quando comparamos os meses de dezembro
de 2014 – último mês do primeiro mandato da presidenta Dilma – e fevereiro de
2015 – primeira pesquisa realizada no novo governo pelo instituto Data Folha –
temos uma queda percentual de 19% na taxa de ótimo ou bom.
Estranhamente, um governo que não vinha mal avaliado, em apenas 1 mês se torna um grande problema para as pessoas. Estranhamente, boa parte daqueles que aprovavam o governo Dilma, de um mês a outro, passa a reprová-lo.
Não queremos aqui isentar o governo das suas
“culpas”, mas, também, precisamos fazer o exercício de trazer à tona um pouco
mais de complexidade para esse caso.
Não iremos (até porque não teremos tempo)
tratar de forma aprofundada as possíveis causas dessa queda abrupta nas taxas
de ótimo ou bom do governo Dilma. O que nos propomos a fazer é abrir um pouco
mais o leque para esse debate permitindo que novos pontos de vista sejam
apresentados e debatidos.
Possíveis
causas da queda
Como apresentado no vídeo acima, o cientista
político Alberto Carlos Almeida afirma que é normal que o governo diminua a sua
taxa de ótimo ou bom logo após a sua reeleição. Mas, em contrapartida, uma
queda de 19% é um tanto quanto exagerada se quisermos mantê-la a fim de dar
créditos à teoria já mencionada.
Isso não significa que podemos, ou que
devemos, rechaçá-la. Não! Muito provavelmente ela faça parte da uma provável
explicação a que nos propomos apresentar.
Mas, neste momento, queremos apresentar
alguns novos dados divulgados pelo Manchetômetro[2].
Na tabela acima, temos a comparação de
manchetes de jornais apresentadas pelo jornal televisivo de maior audiência no
Brasil, o Jornal Nacional da Rede Globo.
Segundo os pesquisadores da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), entre 28 de outubro de 2014 e 03 de janeiro
de 2015, o referido telejornal não apresentou nenhuma manchete favorável a
presidenta Dilma Rousseff, no período de 01 de fevereiro de 2015 à 07 de
fevereiro, a presidenta também não contou com nenhuma manchete positiva a seu
favor. E, entre 15 de março a 21 de março, a presidente teve apenas uma única
manchete positiva.
Ao contrário disso, duas manchetes negativas
povoaram o Jornal Nacional entre 28 de outubro de 2014 e 03 de janeiro de 2015.
Entre 01 de fevereiro a 7 de fevereiro de 2015, seis manchetes negativas à
presidenta Dilma Rousseff são apresentadas no telejornal – perfazendo uma média
de uma manchete negativa por edição. E entre 15 a 21 de março, há uma retração
para duas manchetes.
Nesse mesmo período, as manchetes neutras
oscilam entre nove, cinco e oito respectivamente.
Estamos apresentando aqui somente manchetes
relacionadas diretamente à figura da presidenta Dilma Rousseff que foram
noticiadas pelo Jornal Nacional. Não estamos apresentando as análises feitas
sobre as manchetes dos maiores jornais impressos de circulação nacional.
Sobre os dados das manchetes contrárias
apresentadas pelo Jornal Nacional sobre os partidos políticos, percebemos que o
PT é o partido que tem liderado a lista de manchetes contrárias (chegou a ter,
entre 01 de fevereiro de 2015 a 07 de fevereiro, doze manchetes negativas, um
total de duas manchetes por edição) enquanto o PSDB é o partido que está por
último nessa lista (oscilou várias semanas entre zero e uma manchete e, em
apenas uma única semana, alcançou cinco manchetes, teto máximo do PSDB).
Importante destacar que mesmo com o salto de
manchetes negativas apresentadas no Jornal Nacional sobre o PMDB e PSDB, o PT é
quem continua liderando a lista de manchetes negativas do maior telejornal do
Brasil.
Breves
conclusões
Depois de analisar os dados do instituto Data
Folha e do Manchetômetro, podemos destacar que, tanto a presidenta Dilma quanto
o seu partido, o PT, estão atravessando uma batalha muito forte de aceitação e
de comunicação.
Poderíamos inverter. Tanto Dilma, quanto o
PT, estão perdendo a batalha da comunicação, por isso a aceitação do governo e
do partido tem diminuído.
Dilma Rousseff tem sido constantemente
atacada em pleno horário nobre da televisão brasileira pelo âncora mais famoso
do Brasil, Willian Bonner, e não tem conseguido reagir a esses ataques. O PT,
da mesma forma.
Podemos aceitar a teoria do cientista
político Alberto Carlos Almeida de que após a reeleição todo governo tende a
diminuir a sua taxa de aceitação, mas não podemos negar que a constante
cobertura midiática que afronta diretamente a imagem da presidenta Dilma e do
seu partido, tem papel principal na derrubada das suas taxas de ótimo ou bom.
Como dissemos anteriormente, não podemos negar
o fato de que o governo tem, em grande parte, culpa ao editar Medidas
Provisórias impopulares, ao aumentar impostos, ao nomear um Ministro da Fazenda
com ideias contrárias à ideologia de esquerda, etc.. Mas, ao nosso
entendimento, nada disso teria ampla força para derrubar, em apenas um mês, as
taxas de aprovação do governo de forma tão abrupta quanto o ocorrido nessas
duas faixas da amostra (junho de 2013 e fevereiro de 2015).
Não nos pretendemos, aqui, encerrar o debate
com uma fórmula pronta, pelo contrário, com essas conclusões queremos dar
condições para que se possa fazer um profundo debate, inclusive sobre a
regulação econômica da imprensa, que é o que mais tem irritado os donos dos
grandes jornais do Brasil.
Bibliografia:
Manchetômetro.
Dilma Rousseff. Disponível em: <http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015/cobertura-2015-dilma-rousseff/>
Acesso em 30 de março de 2015.
Manchetômetro.
Partidos. Disponível em: <http://www.manchetometro.com.br/cobertura-2015/cobertura-2015-partidos/>
Acesso em 30 de março de 2015.
Data
Folha. Aprovação a governo Dilma
Rousseff cai, e reprovação a petista dispara. Disponível em: <http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/avaliacaodegoverno/presidente/dilma/indice-1.shtml>
Acesso em 30 de março de 2015.
[1]
Após protestos do Bloco de Lutas em Porto Alegre cobrando o passe livre nas
passagens de ônibus municipais, o movimento pela redução da passagem se torna
nacional com a adesão de vários jovens e movimentos sociais em todo o país. Além
disso, com a proximidade da Copa do Mundo, com a violação de direitos das
comunidades mais pobres muitas vezes ocorridas nas obras para o evento mundial,
e a forte repressão policial, acabam fazendo com que durante a realização da
Copa das Confederações no Brasil, aconteçam as chamadas Jornadas de Junho, que
ficou caracterizado por significativos protestos na luta por mais direitos.
[2]
Website de acompanhamento da cobertura midiática, organizado por cientistas
políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).



