A Dança
"O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim:
esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que
ela quer da gente é coragem”.
Essa linda concepção da vida foi escrita pelo grande autor Guimarães Rosa em
Grande Sertão: Veredas, um clássico da literatura brasileira.
Talvez a boniteza,
como diria Paulo Freire, da vida esteja exatamente nisso, na sua força incontrolável.
Lembro que sempre ansiei por obter certo controle da vida. Nunca fui de fazer
planejamentos, mas sempre quis manter certa estabilidade nas minhas relações.
Sinto dizer: quebrei a cara em todas as vezes em que me meti a controlar o
incontrolável.
A vida,
invariavelmente, nos convida a dançar a sua dança. Por mais que pensemos ser o
dono do passo, não somos o dono da música. E a música é muito mais profunda.
Não é possível dançar tango, quando a vida te impõe um forró. Muito menos axé,
quando a música tocada é uma daquelas sofrências bem doloridas. Por isso, me
aproximando de Guimarães Rosa, a vida nos quer corajosos. Corajosos para
termos, perdoem-me a redundância, coragem de aprender os novos passos e dançar
a música da agulha. Coragem para não ficarmos parados, mas vivermos tudo o que
ela nos coloca para viver.
Como é possível
supor, devido ao fato de já ter dito aqui sobre o quanto prezo por certo
controle e, obviamente, com isso, estabilidade, as inquietações da vida me
paralisam em determinados momentos. Há certos movimentos em que, ao invés de
prosseguir, me fazem travar. E, por vezes, essa trava demora a ser desfeita.
Assim foi meu último período. Muito tempo parado (talvez eu siga parado). A
instabilidade quase me venceu. Apertou tanto, esfriou tanto, desinquietou de
tal forma, e tão surpreendentemente, que eu quase fui vencido. Não que a vida
seja um jogo em que ela nos testa a fim de colecionar vencidos em detrimento
dos vencedores, não acredito nisso. No entanto, voltando à metáfora da música,
quem não consegue aprender determinado ritmo para bailar, acaba ficando no
caminho e, por conseguinte, sai do salão. Só que tenho começado a pensar que
ainda não é o meu momento de sair desse salão.
A vida é surpreendente
e sempre será. Ela, de alguma forma, encontrará um jeito de sair da rota que
traçamos. Seja um emprego novo, seja um curso novo, seja uma mudança de cidade,
seja a perda de alguém. As frustrações estão no fato de não sabermos lidar com
essas mudanças que chegam de forma abrupta. Sim, elas não pedem licença. Elas
apenas chegam. Lembram daquela canção da infância que dizia “sem pedir licença
(o futuro), muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar”? Pois então, por
mais que tentemos pilotar a astronave, não sabemos bem ao certo onde vai dar.
E, talvez, essa seja a beleza inominável da vida: viver o há para viver!
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