Por
volta de dois meses atrás, no facebook,
fui bloqueado pela minha professora da segunda série. O motivo foi a minha
resposta a um texto compartilhado por ela que dizia: “agora (com a posse de
Bolsonaro à presidência da República) as pessoas não precisarão se preocupar,
pois não somos contra os gays, somente não permitiremos mais que transem em
nossa sala de aula...”. Exatamente essa frase me preocupou e eu acabei perguntando
se pessoas transavam em sua sala de aula. Não fui respondido, mas fui
bloqueado.
Há
poucas horas, vi um post de um amigo, também no facebook, que trazia aquelas velhas frases maldosas a respeito da
descriminalização do aborto, colocadas como de autoria da ex-deputada Manuela D’Ávila.
Respondi, com link de notícia que confirmava a minha versão, de que aquilo era
uma antiga fake news. A resposta de
uma outra amiga foi de que isso não importava, o que importava era o que ela
chamou de “moral da história”. O que isso quer dizer, eu não sei.
Há
poucos dias, o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, filho do presidente
Jair Bolsonaro, editou um vídeo de um dos programas da Globo News em que a
jornalista explicava o princípio do direito sobre o crime. Ela desenvolvia um
raciocínio acerca da questão de que ter a propensão para cometer o delito não
faz da pessoa criminosa, pois, para isso, é preciso a consumação de ato
criminoso. Com o vídeo editado em 15 segundos, a fala da jornalista parecia ser
uma alusão à pedofilia.
Nem
mesmo a morte do neto de Lula passou ao largo das mentiras da rede. Logo após a
notícia do falecimento do menino Arthur, de 07 anos, diagnosticado com
meningite meningocócica, se tornou viral uma notícia antiga de que Lula, quando
presidente, teria vetado a inclusão dessa vacina na rede pública. O que também
não é uma verdade.
As
fake news são assim. Em grande parte,
os seus criadores pegam frases, vídeos, notícias, que são verdadeiras e as desvirtuam,
editam, afim de passar a mensagem que eles definiram como necessária para criar
uma narrativa de acordo com os seus interesses. Outras, no entanto, são mentiras
totalmente escabrosas, mas que, por acreditarem na falta de democratização da
informação, acabam ganhando eco entre determinada parcela da população.
Seria
impensável supor que homossexuais transam nas salas de aula, ainda mais na
frente de crianças com menos de 10 anos. Da mesma forma, chega a ser estúpido
supor que alguém defenda a pedofilia. No entanto, com toda a narrativa que se
criou a respeito de uma tal “ideologia de gênero”, isso pode acabar passando como
verdade.
Por
outro lado, se aproveitar da militância política de Manuela D’Ávila em relação a
descriminalização do aborto, ou de Maria do Rosário que tem entre suas bandeiras
a luta contra a redução da maioridade penal, ou de Jean Wyllys com sua
militância pela liberdade sexual, para criar frases absurdas, impensáveis, por
vezes criminosas, com o interesse de criar um ambiente de raiva e ódio contra
essas pessoas e a luta que elas representam, é vil.
O
ambiente que preparou o período eleitoral de 2018 já nos alertava para o que
viria adiante. Chegamos em um período de pós-verdade. Não importa quais sejam
os fatos, os dados, as evidências, as verdades, importa as crenças individuais,
os apelos, etc.
Você,
por exemplo, pode mostrar inúmeros estudos que confirmam que a Terra é redonda
com achatamento nos pólos, no entanto, sempre há quem defenda o terraplanismo
por convicções, normalmente, religiosas.
Não
importa a quantidade de dados que afirmam que a desigualdade socioeconômica é
uma das maiores responsáveis pelo aumento da criminalidade. Sempre haverá aquele
que dirá que só é bandido quem quer. E quando perguntado sobre dados que
evidenciam isso, essa pessoa contará sua história de vida não menos emocionante
do que a de qualquer outra pessoa.
Usei
esses dois exemplos pois foram os primeiros a virem em minha mente, exatamente
porque são os que mais têm gerado polêmica ultimamente. No entanto, são tantos
outros assuntos, tantas outras falas, que, por vezes, olho o calendário e quase
desacredito estar no ano de 2019 da era Cristã.
De
fato, chegamos a um período histórico que tem muito a ser desvendado pelas
ciências humanas. As redes sociais amplificaram aquilo que antes era conversa
de portão e, pior, deu credibilidade. As mais variadas teorias sobre a
desigualdade social e os direitos humanos, por exemplo, passaram a ser reverberadas
nas redes, não importa se elas foram criadas por Malafaias e Felicianos, ou
construídas por Boaventura de Sousa Santos. O que importa é que está na
internet e se está ali é verdade.
Youtubers
passaram a dominar as explicações de filosofia e história. Não importa se eles
não tenham estudado mais do que a quarta série do ensino primário, ou se
acreditem que Karl Marx mudou a sua teoria após a I Guerra Mundial (Karl Marx
já estava morto e, provavelmente, decomposto quando a I Guerra iniciou). Mas
está nas redes, se tornou viral e, consecutivamente, tem se tornado verdade.
Por
isso, hoje não se debate mais, não se discute mais ideias, porque o outro lado,
o da crença, está dogmatizado, não aceita aquilo que lhe é contrário. Por isso,
precisa atacar e desmoralizar o seu interlocutor. Assim, chegamos em um período
cíclico em que ódio constrói e é construído por cada vez mais fake news.

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