segunda-feira, 4 de março de 2019

A era do ódio e das fake news



Por volta de dois meses atrás, no facebook, fui bloqueado pela minha professora da segunda série. O motivo foi a minha resposta a um texto compartilhado por ela que dizia: “agora (com a posse de Bolsonaro à presidência da República) as pessoas não precisarão se preocupar, pois não somos contra os gays, somente não permitiremos mais que transem em nossa sala de aula...”. Exatamente essa frase me preocupou e eu acabei perguntando se pessoas transavam em sua sala de aula. Não fui respondido, mas fui bloqueado.

Há poucas horas, vi um post de um amigo, também no facebook, que trazia aquelas velhas frases maldosas a respeito da descriminalização do aborto, colocadas como de autoria da ex-deputada Manuela D’Ávila. Respondi, com link de notícia que confirmava a minha versão, de que aquilo era uma antiga fake news. A resposta de uma outra amiga foi de que isso não importava, o que importava era o que ela chamou de “moral da história”. O que isso quer dizer, eu não sei.


Há poucos dias, o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, editou um vídeo de um dos programas da Globo News em que a jornalista explicava o princípio do direito sobre o crime. Ela desenvolvia um raciocínio acerca da questão de que ter a propensão para cometer o delito não faz da pessoa criminosa, pois, para isso, é preciso a consumação de ato criminoso. Com o vídeo editado em 15 segundos, a fala da jornalista parecia ser uma alusão à pedofilia.

Nem mesmo a morte do neto de Lula passou ao largo das mentiras da rede. Logo após a notícia do falecimento do menino Arthur, de 07 anos, diagnosticado com meningite meningocócica, se tornou viral uma notícia antiga de que Lula, quando presidente, teria vetado a inclusão dessa vacina na rede pública. O que também não é uma verdade.

As fake news são assim. Em grande parte, os seus criadores pegam frases, vídeos, notícias, que são verdadeiras e as desvirtuam, editam, afim de passar a mensagem que eles definiram como necessária para criar uma narrativa de acordo com os seus interesses. Outras, no entanto, são mentiras totalmente escabrosas, mas que, por acreditarem na falta de democratização da informação, acabam ganhando eco entre determinada parcela da população. 

Seria impensável supor que homossexuais transam nas salas de aula, ainda mais na frente de crianças com menos de 10 anos. Da mesma forma, chega a ser estúpido supor que alguém defenda a pedofilia. No entanto, com toda a narrativa que se criou a respeito de uma tal “ideologia de gênero”, isso pode acabar passando como verdade.

Por outro lado, se aproveitar da militância política de Manuela D’Ávila em relação a descriminalização do aborto, ou de Maria do Rosário que tem entre suas bandeiras a luta contra a redução da maioridade penal, ou de Jean Wyllys com sua militância pela liberdade sexual, para criar frases absurdas, impensáveis, por vezes criminosas, com o interesse de criar um ambiente de raiva e ódio contra essas pessoas e a luta que elas representam, é vil.

O ambiente que preparou o período eleitoral de 2018 já nos alertava para o que viria adiante. Chegamos em um período de pós-verdade. Não importa quais sejam os fatos, os dados, as evidências, as verdades, importa as crenças individuais, os apelos, etc.

Você, por exemplo, pode mostrar inúmeros estudos que confirmam que a Terra é redonda com achatamento nos pólos, no entanto, sempre há quem defenda o terraplanismo por convicções, normalmente, religiosas.

Não importa a quantidade de dados que afirmam que a desigualdade socioeconômica é uma das maiores responsáveis pelo aumento da criminalidade. Sempre haverá aquele que dirá que só é bandido quem quer. E quando perguntado sobre dados que evidenciam isso, essa pessoa contará sua história de vida não menos emocionante do que a de qualquer outra pessoa.

Usei esses dois exemplos pois foram os primeiros a virem em minha mente, exatamente porque são os que mais têm gerado polêmica ultimamente. No entanto, são tantos outros assuntos, tantas outras falas, que, por vezes, olho o calendário e quase desacredito estar no ano de 2019 da era Cristã.

De fato, chegamos a um período histórico que tem muito a ser desvendado pelas ciências humanas. As redes sociais amplificaram aquilo que antes era conversa de portão e, pior, deu credibilidade. As mais variadas teorias sobre a desigualdade social e os direitos humanos, por exemplo, passaram a ser reverberadas nas redes, não importa se elas foram criadas por Malafaias e Felicianos, ou construídas por Boaventura de Sousa Santos. O que importa é que está na internet e se está ali é verdade.

Youtubers passaram a dominar as explicações de filosofia e história. Não importa se eles não tenham estudado mais do que a quarta série do ensino primário, ou se acreditem que Karl Marx mudou a sua teoria após a I Guerra Mundial (Karl Marx já estava morto e, provavelmente, decomposto quando a I Guerra iniciou). Mas está nas redes, se tornou viral e, consecutivamente, tem se tornado verdade.

Por isso, hoje não se debate mais, não se discute mais ideias, porque o outro lado, o da crença, está dogmatizado, não aceita aquilo que lhe é contrário. Por isso, precisa atacar e desmoralizar o seu interlocutor. Assim, chegamos em um período cíclico em que ódio constrói e é construído por cada vez mais fake news.

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