domingo, 13 de janeiro de 2019

O PT e a Geni


O grande artista Chico Buarque de Hollanda, que dispensa comentários e apresentações, compôs a célebre canção “Geni e o Zepelim”, que fez parte do musical Ópera do Malandro lançado no ano de 1978. Nessa canção, Chico retrata a história de uma mulher que constantemente é atacada pelos moradores da cidade em que vive, até o dia em que, para não sucumbirem ao ódio do comandante do Zepelim, fazem dessa mesma Geni uma mulher adorável e necessária. No entanto, o refrão, “joga pedra na Geni”, mesmo depois do obsequioso trabalho feito pela outrora reverenciada mulher, retrata toda a convulsão de uma sociedade moralista e hipócrita que agride àqueles pelos quais não podem mais se valer de algum favor intencional.

É bem verdade que, na música, Geni nunca fora bem aceita pelas pessoas da sua região. Crianças, idosos, as tais pessoas de bem, viviam repetindo injúrias e ataques a ela e a sua honra. Entretando, Geni foi necessária em um determinado momento e, por ser necessária, recebeu, de todas as pessoas, ótimas promessas e o que lhe parecia ser ainda melhor, o respeito e a dignidade.


Nada disso se concretizou! Passado o evento e a necessidade atendida, Geni voltou a ser aquela que ninguém aceitava. Voltou a ser aquela odiada e digna de apedrejamento. Ou seja, Geni não conquistou respeito, afeto, nem mesmo dó ou compaixão. Sua condição seguiu na mesma.

Está certo que a moral política não é a mesma que a moral social, ou religiosa, como bem assinalou Nicolau Maquiavel, em O Príncipe, todavia, é possível marcar esse ponto para a busca de uma análise mínima do que vem acontecendo no cenário político brasileiro no último período. Como bem dizia Leonel Brizola, os interesses movimentam os atores políticos na busca de conquistar, de alguma forma, capital político, econômico ou social. Por isso, os movimentos que são feitos por esses atores, são movimentos pensados no alcance de um determinado objetivo (guarde essa reflexão para os próximos parágrafos).

Se olharmos o período dos governos do PT na esfera federal de forma séria, vamos ter importantes percepções daquele momento. Em dezembro de 2010, quando o presidente Lula se encaminhava para o final do seu governo, 83% da população brasileira considerava o seu governo ótimo ou bom (DATAFOLHA, 2010). Essa aprovação havia crescido de forma considerável quando comparado ao seu primeiro de ano de governo, em 2003. Naquela ocasião, 51% dos brasileiros aprovavam seu governo (FOCO, 2008). Já o governo Dilma, antes do golpe de 2016, chegou a ter uma taxa de aprovação de 63% (iG, 2013).

Todos esses altos índices de aprovação estão ligados a políticas desempenhadas pelos governos Lula e Dilma que refletiram diretamente nos interesses das pessoas. A chamada política de conteúdo nacional garantiu pleno emprego. Aliado a isso, a valorização do salário mínimo acima da inflação aqueceu a economia. As políticas sociais como PROUNI, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, Fome Zero, etc., garantiram condições socioeconômicas dignas para as pessoas mais pobres, sobretudo. E as pessoas perceberam essa melhora. E mais, os partidos e os políticos ao perceberem esse capital político que vinha sendo acumulado pelo PT, foram se aliando ao partido de Lula e de Dilma e se colocando como corresponsáveis pela mudança do Brasil, o que, evidentemente, garantia certa transferência de votos.

Entretanto, o golpe de 2016 e seus desdobramentos, o que inclui a eleição de 2018, são um novo balizador nesse arranjo político.

Perguntas a se fazer, e que precisam de pesquisas bem mais aprofundadas, são: quais os fatores que levaram a uma guinada na popularidade dos governos petistas? O que fez com que reverberasse o discurso de que os governos do PT quebraram o Brasil? O que levou certos setores imputarem ao PT e aos governos petistas as taxas de desemprego e a queda na economia?

Por enquanto, retomo a história cantada por Chico Buarque que ilustrou o início desse texto. Tudo bem que PSDB e PFL/DEM tenham feito oposição direta aos governos petistas ao longo de todo esse tempo. No entanto, partidos como PP (o que inclui o atual presidente da República, agora no PSL, o então deputado federal Jair Bolsonaro), PDT (com senadores que votaram favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff), PSB e demais partidos menores, hoje se colocam em posição de ruptura ao PT e aos seus governos.

Ciro Gomes, candidato do à presidência pelo PDT, ainda culpa o Partido dos Trabalhadores pela sua derrota em 2018 e passou a ter uma atitude hostil ao partido do qual foi ministro e do qual emplacou seu irmão ao ministério da educação. Ciro, no afã de se tornar a liderança da esquerda brasileira, constantemente diz que o PT traiu os trabalhadores, que caiu na vala comum da corrupção e que enlameou a política.

Ora, Ciro concorreu a presidência da República em três oportunidades, em 1998 fez 11% dos votos; em 2002, 12%; e em 2018, 12%. Ciro não foi ao segundo turno, não por causa do PT, mas porque não tem base popular de apoio. Basta ver seus números que não modificam, mesmo em três momentos totalmente diferentes.

É indiscutível a inteligência e a capacidade de argumentação de Ciro. Pessoalmente, poderia dizer, inclusive, que Ciro tem um pensamento progressista de Brasil bem interessante. Mas, também, não posso deixar de lembrar que Ciro Gomes não é uma esquerda pura como vem aludindo em suas falas. Ciro, para os que não sabem, iniciou sua carreira política no PDS (antiga ARENA). Passou pelo PMDB, PSDB e PPS. Tentou se fortalecer no PSB e PROS, sem sucesso. Foi quando chegou ao PDT. Ciro Gomes não é uma novidade política. Ciro Gomes é um carreirista, sem militância política de base, com uma capacidade argumentativa interessante que, em 2018, conseguiu prender a atenção de alguns em torno de si.

Quando ataca o PT se dizendo injustiçado e perseguido, ele esconde que fez de tudo para se afastar da centroesquerda em busca de aliança com partidos como o DEM, de Rodrigo Maia (partido do qual se alia agora para a presidência da Câmara dos Deputados). No início de 2018, todos os partidos de esquerda e centroesquerda vinham conversando sobre a possibilidade de aliança em torno de um programa conjunto pela democracia. Essa unidade ficaria selada com a prisão de Lula no sindicato dos metalúrgicos do ABC. Ciro Gomes foi o único que não compareceu aos sucessivos atos. Não quis subir ao palanque com a esquerda brasileira. Preferiu acenar a Rodrigo Maia e ao DEM, que, dias depois, se alia ao PSDB e deixa Ciro Gomes perdido no meio do caminho, afinal, já era tarde para voltar a conversar com PSOL, PCdoB e PT.

Todavia, mesmo assim, Ciro conseguiu formar em torno de si uma pseudomilitância popular de centroesquerda na tentativa de se fortalecer para 2022 (caso tenhamos eleição em 2022). Esse grupo, segue reverberando ataques ao PT e aos governos petistas tão vis quanto os ataques que o partido e suas lideranças vêm recebendo da extrema direita brasileira.

Ora, quando a popularidade de Lula estava em alta, Ciro dizia que, caso o ex-presidente fosse preso, ele invadiria a sede da Polícia Federal para libertá-lo. Hoje, Ciro o chama de corrupto. Ciro, quando ministro de Lula, andava pelo Brasil de cabeça erguida falando bem do ex-presidente, hoje o ataca. Quando conseguiu emplacar seu irmão, Cid Gomes, no ministério de Dilma, Ciro se dizia um soldado do governo de uma mulher íntegra e honesta, hoje destila ódio chamando Dilma de poste e sem qualificação para a política.

Ciro Gomes tem seus interesses bem definidos, por isso fez a sua escolha: fazer do PT a Geni. Até a eleição de Lula, em 2002, o PT não servia. Entre 2002 e 2016 passou a ser o melhor partido e o melhor governo. De lá para cá, o PT se tornou o diabo na terra.

Por fim, aos que ainda não conhecem o perfil de Ciro Gomes e o acham um defensor da política de Leonel Brizola, saibam que para ele, Brizola é “a fina flor do atraso” (FOLHA, 2002).

Bibliografia

DATAFOLHA. (20 de 12 de 2010). Acima das expectativas, Lula encerra mandato com melhor avaliação da história. Fonte: Datafolha Instituto de Pesquisas: http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2010/12/1211078-acima-das-expectativas-lula-encerra-mandato-com-melhor-avaliacao-da-historia.shtml
FOCO, C. E. (27 de 03 de 2008). Lula tem o maior índice de aprovação desde 2003. Fonte: Congresso em Foco: https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/lula-tem-o-maior-indice-de-aprovacao-desde-2003/
FOLHA. (21 de 08 de 2002). Serra investe contra Ciro no 1º dia de propaganda na TV. Fonte: Folha de São Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2108200212.htm
iG. (19 de 03 de 2013). Popularidade de Dilma bate novo recorde e atinge 79%, diz Ibope. Fonte: iG Último Segundo: https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-03-19/popularidade-de-dilma-bate-novo-recorde-e-sobe-para-79-diz-ibope.html




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