O grande artista Chico Buarque
de Hollanda, que dispensa comentários e apresentações, compôs a célebre canção “Geni
e o Zepelim”, que fez parte do musical Ópera do Malandro lançado no ano de
1978. Nessa canção, Chico retrata a história de uma mulher que constantemente é
atacada pelos moradores da cidade em que vive, até o dia em que, para não
sucumbirem ao ódio do comandante do Zepelim, fazem dessa mesma Geni uma mulher
adorável e necessária. No entanto, o refrão, “joga pedra na Geni”, mesmo depois
do obsequioso trabalho feito pela outrora reverenciada mulher, retrata toda a
convulsão de uma sociedade moralista e hipócrita que agride àqueles pelos quais
não podem mais se valer de algum favor intencional.
É bem verdade que, na música,
Geni nunca fora bem aceita pelas pessoas da sua região. Crianças, idosos, as
tais pessoas de bem, viviam repetindo injúrias e ataques a ela e a sua honra. Entretando,
Geni foi necessária em um determinado momento e, por ser necessária, recebeu,
de todas as pessoas, ótimas promessas e o que lhe parecia ser ainda melhor, o
respeito e a dignidade.
Nada disso se concretizou! Passado
o evento e a necessidade atendida, Geni voltou a ser aquela que ninguém
aceitava. Voltou a ser aquela odiada e digna de apedrejamento. Ou seja, Geni
não conquistou respeito, afeto, nem mesmo dó ou compaixão. Sua condição seguiu
na mesma.
Está certo que a moral
política não é a mesma que a moral social, ou religiosa, como bem assinalou Nicolau
Maquiavel, em O Príncipe, todavia, é possível marcar esse ponto para a busca de
uma análise mínima do que vem acontecendo no cenário político brasileiro no
último período. Como bem dizia Leonel Brizola, os interesses movimentam os
atores políticos na busca de conquistar, de alguma forma, capital político,
econômico ou social. Por isso, os movimentos que são feitos por esses atores,
são movimentos pensados no alcance de um determinado objetivo (guarde essa
reflexão para os próximos parágrafos).
Se olharmos o período dos
governos do PT na esfera federal de forma séria, vamos ter importantes
percepções daquele momento. Em dezembro de 2010, quando o presidente Lula se
encaminhava para o final do seu governo, 83% da população brasileira
considerava o seu governo ótimo ou bom (DATAFOLHA, 2010) . Essa aprovação
havia crescido de forma considerável quando comparado ao seu primeiro de ano de
governo, em 2003. Naquela ocasião, 51% dos brasileiros aprovavam seu governo (FOCO, 2008) . Já o governo Dilma,
antes do golpe de 2016, chegou a ter uma taxa de aprovação de 63% (iG, 2013) .
Todos esses altos índices de
aprovação estão ligados a políticas desempenhadas pelos governos Lula e Dilma
que refletiram diretamente nos interesses das pessoas. A chamada política de
conteúdo nacional garantiu pleno emprego. Aliado a isso, a valorização do
salário mínimo acima da inflação aqueceu a economia. As políticas sociais como
PROUNI, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, Fome Zero, etc.,
garantiram condições socioeconômicas dignas para as pessoas mais pobres,
sobretudo. E as pessoas perceberam essa melhora. E mais, os partidos e os
políticos ao perceberem esse capital político que vinha sendo acumulado pelo
PT, foram se aliando ao partido de Lula e de Dilma e se colocando como corresponsáveis
pela mudança do Brasil, o que, evidentemente, garantia certa transferência de
votos.
Entretanto, o golpe de 2016 e
seus desdobramentos, o que inclui a eleição de 2018, são um novo balizador
nesse arranjo político.
Perguntas a se fazer, e que
precisam de pesquisas bem mais aprofundadas, são: quais os fatores que levaram
a uma guinada na popularidade dos governos petistas? O que fez com que
reverberasse o discurso de que os governos do PT quebraram o Brasil? O que
levou certos setores imputarem ao PT e aos governos petistas as taxas de
desemprego e a queda na economia?
Por enquanto, retomo a
história cantada por Chico Buarque que ilustrou o início desse texto. Tudo bem
que PSDB e PFL/DEM tenham feito oposição direta aos governos petistas ao longo
de todo esse tempo. No entanto, partidos como PP (o que inclui o atual
presidente da República, agora no PSL, o então deputado federal Jair
Bolsonaro), PDT (com senadores que votaram favoráveis ao impeachment de Dilma
Rousseff), PSB e demais partidos menores, hoje se colocam em posição de ruptura
ao PT e aos seus governos.
Ciro Gomes, candidato do à
presidência pelo PDT, ainda culpa o Partido dos Trabalhadores pela sua derrota
em 2018 e passou a ter uma atitude hostil ao partido do qual foi ministro e do
qual emplacou seu irmão ao ministério da educação. Ciro, no afã de se tornar a
liderança da esquerda brasileira, constantemente diz que o PT traiu os
trabalhadores, que caiu na vala comum da corrupção e que enlameou a política.
Ora, Ciro concorreu a
presidência da República em três oportunidades, em 1998 fez 11% dos votos; em
2002, 12%; e em 2018, 12%. Ciro não foi ao segundo turno, não por causa do PT,
mas porque não tem base popular de apoio. Basta ver seus números que não
modificam, mesmo em três momentos totalmente diferentes.
É indiscutível a inteligência
e a capacidade de argumentação de Ciro. Pessoalmente, poderia dizer, inclusive,
que Ciro tem um pensamento progressista de Brasil bem interessante. Mas,
também, não posso deixar de lembrar que Ciro Gomes não é uma esquerda pura como
vem aludindo em suas falas. Ciro, para os que não sabem, iniciou sua carreira
política no PDS (antiga ARENA). Passou pelo PMDB, PSDB e PPS. Tentou se
fortalecer no PSB e PROS, sem sucesso. Foi quando chegou ao PDT. Ciro Gomes não
é uma novidade política. Ciro Gomes é um carreirista, sem militância política
de base, com uma capacidade argumentativa interessante que, em 2018, conseguiu
prender a atenção de alguns em torno de si.
Quando ataca o PT se dizendo
injustiçado e perseguido, ele esconde que fez de tudo para se afastar da
centroesquerda em busca de aliança com partidos como o DEM, de Rodrigo Maia
(partido do qual se alia agora para a presidência da Câmara dos Deputados). No
início de 2018, todos os partidos de esquerda e centroesquerda vinham
conversando sobre a possibilidade de aliança em torno de um programa conjunto
pela democracia. Essa unidade ficaria selada com a prisão de Lula no sindicato
dos metalúrgicos do ABC. Ciro Gomes foi o único que não compareceu aos sucessivos
atos. Não quis subir ao palanque com a esquerda brasileira. Preferiu acenar a
Rodrigo Maia e ao DEM, que, dias depois, se alia ao PSDB e deixa Ciro Gomes
perdido no meio do caminho, afinal, já era tarde para voltar a conversar com
PSOL, PCdoB e PT.
Todavia, mesmo assim, Ciro
conseguiu formar em torno de si uma pseudomilitância popular de centroesquerda
na tentativa de se fortalecer para 2022 (caso tenhamos eleição em 2022). Esse grupo,
segue reverberando ataques ao PT e aos governos petistas tão vis quanto os
ataques que o partido e suas lideranças vêm recebendo da extrema direita
brasileira.
Ora, quando a popularidade de
Lula estava em alta, Ciro dizia que, caso o ex-presidente fosse preso, ele
invadiria a sede da Polícia Federal para libertá-lo. Hoje, Ciro o chama de
corrupto. Ciro, quando ministro de Lula, andava pelo Brasil de cabeça erguida
falando bem do ex-presidente, hoje o ataca. Quando conseguiu emplacar seu
irmão, Cid Gomes, no ministério de Dilma, Ciro se dizia um soldado do governo
de uma mulher íntegra e honesta, hoje destila ódio chamando Dilma de poste e
sem qualificação para a política.
Ciro Gomes tem seus interesses
bem definidos, por isso fez a sua escolha: fazer do PT a Geni. Até a eleição de
Lula, em 2002, o PT não servia. Entre 2002 e 2016 passou a ser o melhor partido
e o melhor governo. De lá para cá, o PT se tornou o diabo na terra.
Por fim, aos que ainda não
conhecem o perfil de Ciro Gomes e o acham um defensor da política de Leonel
Brizola, saibam que para ele, Brizola é “a fina flor do atraso” (FOLHA, 2002) .
Bibliografia
DATAFOLHA.
(20 de 12 de 2010). Acima das expectativas, Lula encerra mandato com
melhor avaliação da história. Fonte: Datafolha Instituto de Pesquisas:
http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2010/12/1211078-acima-das-expectativas-lula-encerra-mandato-com-melhor-avaliacao-da-historia.shtml
FOCO, C. E. (27 de 03 de 2008). Lula tem o maior
índice de aprovação desde 2003. Fonte: Congresso em Foco:
https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/lula-tem-o-maior-indice-de-aprovacao-desde-2003/
FOLHA. (21 de 08 de 2002). Serra investe contra
Ciro no 1º dia de propaganda na TV. Fonte: Folha de São Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2108200212.htm
iG. (19 de 03 de 2013). Popularidade de Dilma
bate novo recorde e atinge 79%, diz Ibope. Fonte: iG Último Segundo:
https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-03-19/popularidade-de-dilma-bate-novo-recorde-e-sobe-para-79-diz-ibope.html
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