quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Às minhas amigas e aos meus amigos cristãos, em especial os católicos.

Não sei quantas pessoas vão ler essas linhas. Não sei se lerão na íntegra. Mas peço, honestamente, que leiam.

Estamos em 2018, ano de eleições gerais. O debate está acirradíssimo e, como democrata e estudante das relações sociais e políticas, penso que seja importante que, de fato, todos debatam os rumos do país.

No entanto, um debate sério, não pode estar preso a opiniões. Ele precisa ser feito com fatos concretos, para que possamos analisar e construir uma linha de raciocínio que nos leve a uma melhor compreensão de onde estamos vivendo e para onde estamos seguindo.


Há 20 anos, dois projetos políticos de caráter econômico diferentes disputavam as eleições. Agora, além do debate econômico, o debate de cunho moral passou a fazer parte dessa disputa. Dessa forma, o PSDB, partido que rivalizou grandes disputas com o PT, foi abandonado pelo seu eleitorado que buscou uma posição mais conservadora de sociedade.

Em 2018, estamos vendo a extrema-direita, com posições nitidamente fascistas, ganhar corpo e nome: Jair Bolsonaro. De certa forma, grande é o meu espanto em ver pessoas do meu círculo de amizades, declarando apoio a esse candidato.

Como estudante, passei a tentar analisar o que os levaria a pensar que Bolsonaro talvez pudesse ser a melhor escolha para o Brasil. Procurei reportagens, procurei vídeos, analisei tudo o que foi possível até o momento. E o que me parece ser a resposta está ligado a uma grande fábrica de fake news (notícias falsas) que causaram um enorme pânico social, sobretudo entre o meio religioso.

Esse candidato usa temas como “kit gay”, “aborto”, “legalização de drogas”, “armamento”, “família tradicional”, ou seja, temas complexos, de forma simplista e sempre buscando criar pânico: “o PT quer acabar com a família”, “o PT quer proteger bandido”, etc.

Amigas, amigos, esta carta não é para falar sobre o PT, que é o partido em que tenho participado há mais de 10 anos, e todos vocês bem sabem, mas é para conversar sobre essas paranóias que têm sido colocadas na sala das nossas casas e nos feito criar ódio a qualquer pensamento progressista.

Bolsonaro não defende pautas cristãs. Tampouco ele age como nós dissemos que um cristão deveria agir. Se é pela “família tradicional”, ele já está na terceira esposa. Se é pela “igualdade”, ele disse que jamais empregaria mulher com o mesmo salário que um homem, porque mulher engravida. Se é pelo “acolhimento”, ele diz que não moraria ao lado da casa de um gay pois desvaloriza o imóvel, além de dizer que espancaria o filho para que ele “virasse homem”. Se é pelo “amor ao próximo”, Bolsonaro defende abertamente a tortura.

Mas, sinceramente, se estas questões não espantam, e nem fazem com que vocês repensem a possibilidade de votar em outro candidato (se for pelo voto ideológico de direita, que seja o Amoedo então), vocês precisam compreender que Bolsonaro, como parlamentar há mais de 25 anos, nunca teve um papel relevante no Congresso Nacional.

Esse deputado, e seu filho, que é deputado federal pelo estado de São Paulo, votaram contra o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Jair Bolsonaro votou contra a regulamentação dos direitos das domésticas. Ele votou a favor da reforma trabalhista, que acabou com a CLT. Votou contra o Plano Real, ainda na década de 1990. Votou contra a estipulação de um teto salarial no setor público. Votou contra o fim da aposentadoria especial de deputados e senadores. Votou contra a proibição de nepotismo (empregar parentes até o terceiro grau sem concurso público) no setor público. Votou contra o fim da pensão para filhas de militares. Votou contra a criação do Fundo de Combate à Pobreza.

Bolsonaro também não é o grande inocente como dizem: é acusado de receber propina da JBS; é acusado de sonegação de impostos; é apontado em suspeitas de lavagem de dinheiro; tem envolvimento com caixa 2 de campanha; empregou o irmão em seu gabinete como funcionário fantasma; sem contar o fato de ter apartamento próprio em Brasília mas receber auxílio moradia para, segundo ele próprio, “comer gente”.

Além disso, ele foi capaz de criar projeto de lei que impede o SUS de atender mulheres vítimas de violência sexual e não apresentou nenhuma proposta para melhorar a segurança do seu estado, o Rio de Janeiro.

Sei que me alonguei, e peço inúmeras desculpas por isso, mas preciso ainda falar sobre a sua repercussão internacional.

A revista The Economist, em 20 de setembro de 2018, publicou que Bolsonaro é uma “ameaça para o Brasil e a América Latina”. Segundo o jornal, “se ele vencesse, poderia colocar em risco a própria sobrevivência da democracia no maior país da América Latina”.

O Jornal Le Monde Diplomatique, em 09 de abril de 2018, o chama de “Trump tropical, homofóbico e machista”. E diz que ele “se tornou conhecido por suas declarações polêmicas e sua estratégia oportunista”.

O The Intercept, em 26 de agosto de 2018, diz que “Bolsonaro não tem a mínima noção dos problemas básicos que poderá vir a enfrentar como presidente”, e que “ele está há quase 30 anos na vida pública parlamentar sem ter feito nada de relevante – nem a favor de suas odiosas bandeiras, diga-se – e até hoje não adquiriu a mínima noção de economia”.

O The New York Times, em julho de 2018, fala que Bolsonaro “em vez de debater idéias, ele culpa os que não concordam com ele. Bolsonaro é como um meme que se torna viral porque difunde opiniões fáceis. Sua fala se move entre raiva e preconceito”. E o jornal estadunidense vai mais longe, “dada a superpopulação nas prisões e o aumento da violência urbana, ele propõe armar a população para matar criminosos. E quem não concorda deve ser criminoso também, insinua”. E mais, “sua guerra de frases ininteligíveis distorce qualquer tentativa de debate”. E termina dizendo: “não há candidatos perfeitos, mas um candidato fez campanha com posições decididamente antidemocráticas. (...) Se o Brasil precisa de alguma coisa, agora, é para consolidar sua democracia”.

Meus amigos, minhas amigas, os que já são jovens há mais tempo, vão lembrar que, em 2002, Regina Duarte foi à televisão dizer que tinha medo do PT. Fez previsões aterrorizadoras. Disse que as pessoas perderiam suas casas para um governo comunista. No governo, Lula foi um socialdemocrata, como sempre foi em toda sua vida. O Brasil se tornou a 6ª maior economia do mundo. E tivemos a menor taxa de desemprego da história: 4,9% de desempregados.

Agora, querem trazer aquele mesmo medo de volta. Estão dizendo para vocês que qualquer outro governo que não for o de Bolsonaro, será um governo “comunista” que irá acabar com a família, com a moral e, já escutei isso de gente muito querida, “proibir as adorações a Jesus Cristo”. Ora, em 13 anos de governo isso nunca sequer foi cogitado. Aliás, o direito à liberdade religiosa só está na Constituição Federal de 1988 porque um comunista declarado, filiado ao Partido Comunista do Brasil, o escritor baiano Jorge Amado, que era deputado constituinte, redigiu a proposta e a defendeu no plenário.

A fábrica de fake news está procurando criar pânico. Não se permita levar por isso. Vocês lembram o quanto a vida melhorou a partir de 2003.

Estou escrevendo a vocês, minhas amigas e meus amigos cristãos, principalmente aos católicos, pois, como católico que sou, ativo na comunidade, participante de pastorais e movimentos (desde a pastoral da juventude até a RCC), me sentia na necessidade de conversar com cada uma e cada um sobre esse momento histórico sombrio que estamos passando.

O fascismo destruiu a Europa nas décadas de 1930 e 1940, disseminando o ódio contra aqueles que eram, pensavam e agiam diferente de um determinado grupo dominante. Não vamos permitir que isso alcance o Brasil.

Por fim, estou a disposição para um debate aberto e respeitoso sobre o tema.

Meu abraço.


Paulinho dos Santos

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