Não
sei quantas pessoas vão ler essas linhas. Não sei se lerão na íntegra. Mas
peço, honestamente, que leiam.
Estamos
em 2018, ano de eleições gerais. O debate está acirradíssimo e, como democrata
e estudante das relações sociais e políticas, penso que seja importante que, de
fato, todos debatam os rumos do país.
No
entanto, um debate sério, não pode estar preso a opiniões. Ele precisa ser feito
com fatos concretos, para que possamos analisar e construir uma linha de raciocínio
que nos leve a uma melhor compreensão de onde estamos vivendo e para onde
estamos seguindo.
Há
20 anos, dois projetos políticos de caráter econômico diferentes disputavam as
eleições. Agora, além do debate econômico, o debate de cunho moral passou a
fazer parte dessa disputa. Dessa forma, o PSDB, partido que rivalizou grandes
disputas com o PT, foi abandonado pelo seu eleitorado que buscou uma posição
mais conservadora de sociedade.
Em
2018, estamos vendo a extrema-direita, com posições nitidamente fascistas,
ganhar corpo e nome: Jair Bolsonaro. De certa forma, grande é o meu espanto em
ver pessoas do meu círculo de amizades, declarando apoio a esse candidato.
Como
estudante, passei a tentar analisar o que os levaria a pensar que Bolsonaro
talvez pudesse ser a melhor escolha para o Brasil. Procurei reportagens,
procurei vídeos, analisei tudo o que foi possível até o momento. E o que me
parece ser a resposta está ligado a uma grande fábrica de fake news (notícias falsas) que causaram um enorme pânico social,
sobretudo entre o meio religioso.
Esse
candidato usa temas como “kit gay”, “aborto”, “legalização de drogas”, “armamento”,
“família tradicional”, ou seja, temas complexos, de forma simplista e sempre
buscando criar pânico: “o PT quer acabar com a família”, “o PT quer proteger
bandido”, etc.
Amigas,
amigos, esta carta não é para falar sobre o PT, que é o partido em que tenho
participado há mais de 10 anos, e todos vocês bem sabem, mas é para conversar
sobre essas paranóias que têm sido colocadas na sala das nossas casas e nos
feito criar ódio a qualquer pensamento progressista.
Bolsonaro
não defende pautas cristãs. Tampouco ele age como nós dissemos que um cristão
deveria agir. Se é pela “família tradicional”, ele já está na terceira esposa. Se
é pela “igualdade”, ele disse que jamais empregaria mulher com o mesmo salário
que um homem, porque mulher engravida. Se é pelo “acolhimento”, ele diz que não
moraria ao lado da casa de um gay pois desvaloriza o imóvel, além de dizer que
espancaria o filho para que ele “virasse homem”. Se é pelo “amor ao próximo”,
Bolsonaro defende abertamente a tortura.
Mas,
sinceramente, se estas questões não espantam, e nem fazem com que vocês
repensem a possibilidade de votar em outro candidato (se for pelo voto ideológico
de direita, que seja o Amoedo então), vocês precisam compreender que Bolsonaro,
como parlamentar há mais de 25 anos, nunca teve um papel relevante no Congresso
Nacional.
Esse
deputado, e seu filho, que é deputado federal pelo estado de São Paulo, votaram
contra o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Jair Bolsonaro votou contra a
regulamentação dos direitos das domésticas. Ele votou a favor da reforma
trabalhista, que acabou com a CLT. Votou contra o Plano Real, ainda na década
de 1990. Votou contra a estipulação de um teto salarial no setor público. Votou
contra o fim da aposentadoria especial de deputados e senadores. Votou contra a
proibição de nepotismo (empregar parentes até o terceiro grau sem concurso público)
no setor público. Votou contra o fim da pensão para filhas de militares. Votou
contra a criação do Fundo de Combate à Pobreza.
Bolsonaro
também não é o grande inocente como dizem: é acusado de receber propina da JBS;
é acusado de sonegação de impostos; é apontado em suspeitas de lavagem de
dinheiro; tem envolvimento com caixa 2 de campanha; empregou o irmão em seu
gabinete como funcionário fantasma; sem contar o fato de ter apartamento
próprio em Brasília mas receber auxílio moradia para, segundo ele próprio, “comer
gente”.
Além
disso, ele foi capaz de criar projeto de lei que impede o SUS de atender
mulheres vítimas de violência sexual e não apresentou nenhuma proposta para
melhorar a segurança do seu estado, o Rio de Janeiro.
Sei
que me alonguei, e peço inúmeras desculpas por isso, mas preciso ainda falar
sobre a sua repercussão internacional.
A
revista The Economist, em 20 de
setembro de 2018, publicou que Bolsonaro é uma “ameaça para o Brasil e a América
Latina”. Segundo o jornal, “se ele vencesse, poderia colocar em risco a própria
sobrevivência da democracia no maior país da América Latina”.
O
Jornal Le Monde Diplomatique, em 09
de abril de 2018, o chama de “Trump tropical, homofóbico e machista”. E diz que
ele “se tornou conhecido por suas declarações polêmicas e sua estratégia
oportunista”.
O
The Intercept, em 26 de agosto de
2018, diz que “Bolsonaro não tem a mínima noção dos problemas básicos que poderá
vir a enfrentar como presidente”, e que “ele está há quase 30 anos na vida pública
parlamentar sem ter feito nada de relevante – nem a favor de suas odiosas
bandeiras, diga-se – e até hoje não adquiriu a mínima noção de economia”.
O
The New York Times, em julho de 2018,
fala que Bolsonaro “em vez de debater idéias, ele culpa os que não concordam
com ele. Bolsonaro é como um meme que se torna viral porque difunde opiniões fáceis.
Sua fala se move entre raiva e preconceito”. E o jornal estadunidense vai mais
longe, “dada a superpopulação nas prisões e o aumento da violência urbana, ele
propõe armar a população para matar criminosos. E quem não concorda deve ser
criminoso também, insinua”. E mais, “sua guerra de frases ininteligíveis
distorce qualquer tentativa de debate”. E termina dizendo: “não há candidatos
perfeitos, mas um candidato fez campanha com posições decididamente antidemocráticas.
(...) Se o Brasil precisa de alguma coisa, agora, é para consolidar sua
democracia”.
Meus
amigos, minhas amigas, os que já são jovens há mais tempo, vão lembrar que, em
2002, Regina Duarte foi à televisão dizer que tinha medo do PT. Fez previsões
aterrorizadoras. Disse que as pessoas perderiam suas casas para um governo
comunista. No governo, Lula foi um socialdemocrata, como sempre foi em toda sua
vida. O Brasil se tornou a 6ª maior economia do mundo. E tivemos a menor taxa
de desemprego da história: 4,9% de desempregados.
Agora,
querem trazer aquele mesmo medo de volta. Estão dizendo para vocês que qualquer
outro governo que não for o de Bolsonaro, será um governo “comunista” que irá
acabar com a família, com a moral e, já escutei isso de gente muito querida, “proibir
as adorações a Jesus Cristo”. Ora, em 13 anos de governo isso nunca sequer foi
cogitado. Aliás, o direito à liberdade religiosa só está na Constituição
Federal de 1988 porque um comunista declarado, filiado ao Partido Comunista do
Brasil, o escritor baiano Jorge Amado, que era deputado constituinte, redigiu a
proposta e a defendeu no plenário.
A
fábrica de fake news está procurando
criar pânico. Não se permita levar por isso. Vocês lembram o quanto a vida
melhorou a partir de 2003.
Estou
escrevendo a vocês, minhas amigas e meus amigos cristãos, principalmente aos
católicos, pois, como católico que sou, ativo na comunidade, participante de
pastorais e movimentos (desde a pastoral da juventude até a RCC), me sentia na
necessidade de conversar com cada uma e cada um sobre esse momento histórico
sombrio que estamos passando.
O
fascismo destruiu a Europa nas décadas de 1930 e 1940, disseminando o ódio
contra aqueles que eram, pensavam e agiam diferente de um determinado grupo
dominante. Não vamos permitir que isso alcance o Brasil.
Por
fim, estou a disposição para um debate aberto e respeitoso sobre o tema.
Meu
abraço.
Paulinho
dos Santos
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