Como queremos reconquistar a classe
trabalhadora com a arrogância das elites?
Essa é uma pergunta que tenho me
feito ultimamente, sobretudo com o resultado das políticas neoliberais impostas
pelo governo Temer, sem a chancela do eleitorado, que tem levado a uma piora
das condições de vida do povo brasileiro.
Michel Temer chegou à presidência da
República após um golpe de Estado, planejado e conduzido pelo seu interlocutor
na Câmara dos Deputados, deputado Eduardo Cunha, presidente daquela Casa
naquele momento, levando consigo um programa de governo que não havia sido
apresentado aos eleitores na eleição de 2014, por isso, um projeto não-eleito.
Essa condição configura o golpe que
foi levado a cabo no Brasil em 2016: a retirada de uma presidenta eleita do
poder, sem que ela tivesse cometido crime tipificado na legislação brasileira,
promovido pelos partidos de oposição em conluio com setores dos partidos da
base aliada descontentes com o governo, alavancado pela imprensa nacional e
referendado pelo Poder Judiciário; além disso, a substituição do chefe do Poder
Executivo se deu em conjunto com a troca do projeto político eleito em 2014,
juntamente com uma completa alteração da base aliada que passou a compor o novo
governo (os partidos da oposição ingressaram no governo e os partidos do
governo migraram para a oposição).
Romero Jucá, senador do MDB pelo
estado de Roraima, ferrenho apoiador de Michel Temer, classificaria o golpe
como “um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”.
Ora, o discurso combativo ao PT, ao
comunismo (sim, aquele discurso ridículo dos tempos da Guerra Fria ainda existe
em pleno século XXI) e à corrupção, promovido pelas elites, ganhou a classe
média e alguns setores entre os trabalhadores.
Erros de avaliação do governo
petista, sobretudo em relação à economia (não esqueçamos o ajuste fiscal
promovido pelo governo Dilma logo após a eleição de 2014, a mais acirrada dos
últimos tempos), fizeram com que o governo passasse a ser mal avaliado inclusive
entre as classes populares. Assim, o “grande acordo”, de Jucá, para a
viabilização do golpe, provavelmente incluiria a população não ligada a
movimentos sociais e partidos políticos.
Mesmo com focos de resistência por parte
de militantes de alguns dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais,
embora intimidados por algumas discordâncias com o governo, o golpe foi
consumado.
E é inegável que um novo governo,
seja ele resultado de um processo eleitoral ou fruto de uma ação golpista,
sempre carrega consigo as esperanças daqueles que, de alguma forma, o apoiaram.
Jucá e os seus esperavam “estancar
essa sangria” (se referindo às investigações de corrupção contra os políticos,
por parte da Polícia Federal), a elite empresarial esperava pelas reformas
trabalhista e previdenciária. Já as classes populares, paradoxalmente,
esperavam o aumento do número de empregos e a melhoria do poder de compra.
A tentativa de atender aos primeiros
fez com que os políticos dos partidos aliados de Temer fossem blindados pelo
novo governo e as elites tivessem seus interesses, senão completamente, quase
que integralmente atendidos.
O resultado dessas ações restringiu
os direitos trabalhistas, piorou os índices econômicos, aumentou o número de
desempregados, levou famílias à miséria, nos fez novamente conviver com meninos
e meninas pedindo dinheiro nos sinais e nas paradas de ônibus... Ou seja, os
duros anos da década de 1990 têm vindo figurar em nossa história que parecia
ser de ascensão econômica e social do século XXI.
Mais uma vez os trabalhadores e as
trabalhadoras foram enganados pelas elites. Mais uma vez, os poderosos do
Brasil venderam um país e lhes entregaram outro. E isso acontece, exatamente,
porque o seu projeto político é um projeto que exclui os mais pobres, não por
considerar sua condição social como produto de um processo histórico de
exclusão, mas por taxá-los como “vagabundos” diante de uma pseudo-meritocracia
natimorta em nossa sociedade tão desigual.
Então, refaço a questão: como
queremos reconquistar a classe trabalhadora com a arrogância das elites?
A que me refiro?
Ora, diante desse cenário de piora
das condições de vida das classes populares, tem sido comum encontrarmos
militantes do Partido dos Trabalhadores, ou dos demais partidos de esquerda, ou
dos movimentos sociais, dizendo, com certo ar de superioridade, frases de
deboche àqueles que, por algum motivo, apoiaram a queda da presidenta Dilma.
Temos visto crescer o número de
“profetas do acontecido” dizendo, do alto de sua sapiência, frases no mais
asqueroso sentido do “eu avisei”, “agora chora”... Ou, até mesmo, interjeições
como “ué?!”.
Não são essas frases, esse jogo de
uma quase aposta pelo pior, que vai fazer com que reconquistemos os
trabalhadores e as trabalhadoras que, encantados por uma promessa de superação
da corrupção e da melhora das condições de vida, defenderam o fim dos governos
petistas.
A esquerda brasileira precisa ser
propositiva e não tripudiar sobre aqueles que têm sofrido os mais duros ataques
do governo de Michel Temer e dos tucanos. O PT precisa apresentar um projeto
sério à nação, reconhecendo todas as suas políticas positivas ao longo de 13
anos de governos Lula e Dilma, denunciar o fim dessas políticas e, com isso, a
destruição do Estado brasileiro e dos mais pobres, e apresentar um plano que vá
além do que já fora, outrora, conquistado.
É hora de sermos ousados! Só assim
vamos reconquistar aqueles que fazem parte do nosso campo, caso contrário,
afastaremos ainda mais aqueles que um dia puderam sonhar com as políticas de
inclusão social e econômica implementadas por Lula e Dilma.
Publicado originalmente pelo blog Humanidades em Debate, disponível em <http://humanidadesemdebate.blogspot.com.br/2018/05/e-hora-da-esquerda-reconquistar.html>
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