segunda-feira, 30 de abril de 2018

Conto: Espelho


Minhas amigas e meus meus amigos, hoje resolvi compartilhar com vocês um dos tantos contos que escrevi. De vez em quando isso acontece! É bastante intimista, e foge bastante da característica política ao qual vocês estão acostumados. 

Espero que gostem. 


Espelho

Paulinho dos Santos

Depois de quase quatro meses, hoje foi o primeiro dia que em que se olhara verdadeiramente no espelho. Não tinha mais coragem de se olhar nos olhos. Tinha medo da dor que podia encontrar ali.

Mas hoje foi diferente. De relance, enquanto escova os dentes, viu que os olhos se cruzaram no espelho. Rapidamente os baixou, e seguiu a higiene pessoal. No entanto, aquele olhar, quase esverdeado, ficara em sua mente.


Viu que havia algo diferente ali. Sentiu que algo o conduzira àquela situação. Não sentira nenhum arrepio de medo, raiva, ou vergonha, talvez, enquanto o olhar se cruzara. Sentiu tranquilidade.

Seguiu a sua tarefa até o fim. Cabeça baixa, para não encarar o espelho novamente. No entanto, uma força o encorajava a levantar os olhos e encarar mais uma vez aquela figura tão conhecida, mas, também, tão distante.

Depois de guardar a escova de dentes e seu creme dental, passou uma água no rosto, respirou fundo, e, lentamente, foi levantando a cabeça e abrindo os olhos. Lá estava ele. Ele próprio. Ele mesmo. A si mesmo a encarar.

Pôs a mão no rosto, reparou a barba mal cortada, os cabelos em desalinho, a ausência de um sorriso, um olhar espremido... E sorriu. Levemente, mas sorriu.

Olhar aquele rosto (olhar o seu rosto!), naquele momento, foi diferente em relação a qualquer outro no qual já havia passado. Há algum tempo atrás isso lhe era algo banal, agora, não mais.

Encarar a si próprio, pela primeira vez em tempos, já não foi mais um fardo. Não sentiu o peso dos erros sobre si. Não sentiu as correntes que o prendia. Apenas se viu... E gostou do que viu.

Aos poucos foi perdendo a timidez e lhe foi aumentando a coragem para se olhar e se gostar. O pequeno sorriso de canto de boca foi dando espaço a um sorriso largo, tanto que já era possível ver seus dentes ao mesmo tempo em que as suas pálpebras abriam espaço para um olhar mais cheio e completo.

Sabia que a dor não tinha ido embora por completo, mas, também sabia que tinha condições de viver e de permitir se amar.

Não se sentira um novo homem. Nem queria isso. Mas sentiu que tinha forças e que fora a sua força que o trouxe até esse momento.

A vida nunca lhe foi fácil. Desde a infância teve de lidar com perdas e sofrimentos. E, naquele momento, viu isso nos seus olhos.

Viu mais do que dor, viu força. Viu mais do que medo, viu coragem. Viu mais do que timidez, viu expressão!

Por um momento chegou a se perder naquele sorriso e naquele olhar. Ficou sem entender como se permitira sofrer tanto por algo que não competia a si. Balançou a cabeça em sinal de reprovação por suas escolhas que foram lhe prendendo, cada dia mais, num canto escuro de si mesmo. E sorriu mais ainda.

Agora, o sorriso já era de orgulho. Orgulho por tudo o que vivera até ali. Orgulho por ter tido a força necessária de se olhar e se admirar. Sabia que não era belo como os famosos da TV, mas isso pouco lhe importava. O que importava, naquele momento, era voltar a se reconhecer naquela figura que o espelho refletia.

O passado ainda doía, e ele não saberia dizer quando passaria a ser diferente. Mas, agora, passou a ter certeza de que era possível continuar, seguir, viver e (se) amar!

Pegou a toalha, secou o rosto, olhou novamente para si. Deu leves tapas na face. Sorriu mais uma vez. Virou as costas e desligou a luz. Fechou a porta e seguiu!

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