Minhas amigas e meus meus amigos, hoje resolvi compartilhar com vocês um dos tantos contos que escrevi. De vez em quando isso acontece! É bastante intimista, e foge bastante da característica política ao qual vocês estão acostumados.
Espero que gostem.
Espelho
Paulinho dos Santos
Depois de quase quatro
meses, hoje foi o primeiro dia que em que se olhara verdadeiramente no espelho.
Não tinha mais coragem de se olhar nos olhos. Tinha medo da dor que podia encontrar
ali.
Mas hoje foi diferente. De
relance, enquanto escova os dentes, viu que os olhos se cruzaram no espelho.
Rapidamente os baixou, e seguiu a higiene pessoal. No entanto, aquele olhar,
quase esverdeado, ficara em sua mente.
Viu que havia algo diferente
ali. Sentiu que algo o conduzira àquela situação. Não sentira nenhum arrepio de
medo, raiva, ou vergonha, talvez, enquanto o olhar se cruzara. Sentiu
tranquilidade.
Seguiu a sua tarefa até o
fim. Cabeça baixa, para não encarar o espelho novamente. No entanto, uma força
o encorajava a levantar os olhos e encarar mais uma vez aquela figura tão
conhecida, mas, também, tão distante.
Depois de guardar a escova
de dentes e seu creme dental, passou uma água no rosto, respirou fundo, e,
lentamente, foi levantando a cabeça e abrindo os olhos. Lá estava ele. Ele
próprio. Ele mesmo. A si mesmo a encarar.
Pôs a mão no rosto, reparou
a barba mal cortada, os cabelos em desalinho, a ausência de um sorriso, um
olhar espremido... E sorriu. Levemente, mas sorriu.
Olhar aquele rosto (olhar o
seu rosto!), naquele momento, foi diferente em relação a qualquer outro no qual
já havia passado. Há algum tempo atrás isso lhe era algo banal, agora, não
mais.
Encarar a si próprio, pela
primeira vez em tempos, já não foi mais um fardo. Não sentiu o peso dos erros
sobre si. Não sentiu as correntes que o prendia. Apenas se viu... E gostou do
que viu.
Aos poucos foi perdendo a
timidez e lhe foi aumentando a coragem para se olhar e se gostar. O pequeno
sorriso de canto de boca foi dando espaço a um sorriso largo, tanto que já era
possível ver seus dentes ao mesmo tempo em que as suas pálpebras abriam espaço
para um olhar mais cheio e completo.
Sabia que a dor não tinha ido
embora por completo, mas, também sabia que tinha condições de viver e de
permitir se amar.
Não se sentira um novo homem.
Nem queria isso. Mas sentiu que tinha forças e que fora a sua força que o
trouxe até esse momento.
A vida nunca lhe foi fácil. Desde
a infância teve de lidar com perdas e sofrimentos. E, naquele momento, viu isso
nos seus olhos.
Viu mais do que dor, viu
força. Viu mais do que medo, viu coragem. Viu mais do que timidez, viu expressão!
Por um momento chegou a se
perder naquele sorriso e naquele olhar. Ficou sem entender como se permitira
sofrer tanto por algo que não competia a si. Balançou a cabeça em sinal de
reprovação por suas escolhas que foram lhe prendendo, cada dia mais, num canto
escuro de si mesmo. E sorriu mais ainda.
Agora, o sorriso já era de
orgulho. Orgulho por tudo o que vivera até ali. Orgulho por ter tido a força
necessária de se olhar e se admirar. Sabia que não era belo como os famosos da
TV, mas isso pouco lhe importava. O que importava, naquele momento, era voltar
a se reconhecer naquela figura que o espelho refletia.
O passado ainda doía, e ele
não saberia dizer quando passaria a ser diferente. Mas, agora, passou a ter
certeza de que era possível continuar, seguir, viver e (se) amar!
Pegou a toalha, secou o
rosto, olhou novamente para si. Deu leves tapas na face. Sorriu mais uma vez.
Virou as costas e desligou a luz. Fechou a porta e seguiu!
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