Às pessoas que me leem, desde
já preciso dizer que esse artigo não está calcado em um grande conceito
teórico, como os que costumo escrever, tampouco tem seu sucesso garantido a
partir de experiências já vividas até o momento (ao menos que eu tenha
conhecimento).
Todavia, mesmo assim, não
posso deixar de escrever as percepções que eu tenho a respeito de todos os
movimentos pelo quais temos passado.
Se é verdade o que o sociólogo
Albert Hirschman escreveu a respeito do avanço das ondas conservadoras, e tendo
a pensar que sim, será que poderíamos esperar que o inverso disso também seja verdadeiro?
O cientista político André
Marenco resgata o pensamento de Hirshman no artigo “as duas caudas de Gauss:
minorias, protesto e representação política” ao afirmar que “períodos de grande
mobilidade social costumam ser seguidos por ondas conservadoras, marcadas por
uma retórica de intolerância em relação à mudança e à concessão de benefícios
aos pobres”.
É inegável as mudanças sociais
que o Brasil viveu nos primeiros 15 anos do século XXI. A economia brasileira
foi uma das que mais que cresceu, no mundo, nesse período. O Brasil se tornou
um dos países mais respeitados politicamente na comunidade internacional.
Internamente, milhares de pessoas saíram da miséria, ingressaram em
universidades, ocuparam bons espaços no mercado de trabalho (com salário mínimo
valorizado), passaram a ter poder compra e crédito, adquiriram imóveis,
automóveis e demais bens.
Ora, se todo esse período de
grande mobilidade social vivido no Brasil não foi capaz de conter o avanço dos
conservadores, com sua política moralista, fazendo com que fôssemos inundados
por essa grande onda que parece não ter fim, tendo a pensar que todas as
políticas antiprogressistas, anti-igualitárias, antipovo, que estão sendo
implementadas por esse grupo político nos espaços de poder em que eles estão
ocupando, em algum momento, mais cedo ou mais tarde, cairão por terra.
Não quero dizer aqui que o
pensamento de Hirschman seja determinista, até porque, penso, se assim fosse,
não seria possível, em momento algum, fazer a revolução[i] tão necessária para a
construção de uma sociedade extremamente democrática e humanitária.
![]() |
| Cena do filme "A Onda", de 2008, de Dennis Gansel. |
No entanto, levando em consideração
esse pensamento sobre a ascenção da onda conservadora, que cresce à medida da
mobilidade social em uma sociedade, tendo a pensar que o resultado desastroso
às camadas mais populares das políticas implementadas após anos de sucesso
econômico e social, levam ao ressurgimento dos grupos progressistas e/ou das políticas
progressistas a que outrora a sociedade esteve exposta.
Ou seja, o fracasso das
políticas conservadoras, moralistas e, paradoxalmente, de cunho neoliberal,
está exatamente atrelado ao seu êxito em encontrar espaço na sociedade e
ascender aos espaços de poder.
Por isso, não vislumbro outra
realidade que não seja a de superação da onda conservadora, pois, enquanto
esses grupos procuram fazer “terra arrasada” de tudo o que foi construído para,
com isso, implementarem seu programa ideológico que ataca, sobretudo, os mais
pobres, estes, que passaram a ser abandonados pelo Estado, passam a rememorar
os tempos de superação da miséria a que viviam.
E ao fazerem esse processo de
relembrar e, acima de tudo, compreender e reconhecer as mudanças pelas quais
passaram, é que as trabalhadoras e os trabalhadores passam a aspirar por novos
rumos que as façam “crescer na vida”, novamente.
Nesse sentido, cabe às
esquerdas um discurso de esperança, um discurso de confiança na capacidade das
pessoas em voltar a transformar a realidade brasileira de forma inclusiva,
democrática.
Fazer com que as pessoas
voltem a sonhar com um futuro onde mulheres e homens sejam livres. Um futuro
onde haja fraternidade, igualdade, humanidade. Um futuro onde a democracia seja
plena e todas e todos tenham acesso ao que desejarem. Um futuro onde ninguém
esteja sob o domínio de ninguém.
Mas, que acima de tudo, esse
futuro possa ser construído em conjunto com a sociedade, pois, somente desse
forma é que será possível, após anos de avanços e mobilidade social, superar
qualquer ensaio conservador que possa querer fermentar nos porões de nossa
sociedade.
Publicado originalmente pelo blog Humanidades
em Debate, disponível em <http://humanidadesemdebate.blogspot.com.br/2018/01/por-que-iremos-superar-essa-onda.html>
[i] Ao
falar em revolução, não me refiro, necessariamente, àquelas revoluções
comunistas até aqui conhecidas no mundo, que tiveram seu valor histórico, mas
que ficaram no tempo. As revoluções armadas, como a da Rússia e a de Cuba, por
exemplo, penso, não têm mais espaço em uma nova sociedade. No entanto, me
refiro a revoluções culturais, que são constituídas, em grande parte, por uma
educação libertadora e comprometida com as classes populares.

Nenhum comentário:
Postar um comentário