Mais uma vez o Brasil chora
por mortes em escola. Em menos de um mês, fomos surpreendidos por dois graves
ataques. O primeiro, em uma escola de educação pública infantil de Minas
Gerais, quando um vigia daquela instituição ateou fogo em algumas crianças e em
si próprio. O segundo, em uma escola particular de Goiás, um adolescente atirou
contra os próprios colegas dentro da sala de aula.
Não pretendo me ater ao primeiro
caso, que, segundo investigações policiais, está ligado a transtornos mentais
sofridos pelo criminoso. Também não quero escrever especificamente sobre o
segundo, mas sobre as questões que o envolve. Ou seja, penso que precisamos
falar sobre bullying e sobre acesso a armas de fogo.
Os adultos de hoje, entre os
quais me incluo, são de uma geração em que era muito comum a propagação de
piadas de cunho racista, machista, homofóbica, gordofóbica, xenófoba, etc., ou
seja, costumávamos ouvir e promover piadas que atacavam determinados grupos.
Não que agora isso tenha acabado, mas, entre os ouvintes, sempre tem, ao menos
uma pessoa, que se sente desconfortável com piadas que possuem algumas dessas
características.
Além disso, também somos de um
tempo em que era muito comum rir de um colega em sala de aula por alguma
característica que este apresentava. Era normal fazer chacota do “CDF”, rir do
“espinhento”, brincar com o “BV”, tirar sarro do “nanico”, do “gordinho”, do
“viado” e da “sapatona”. Os apelidos bizarros eram os que mais pegavam,
principalmente se o apelidado se sentisse ofendido.
Não se falava em bullying.
Aliás, esse conceito nem era conhecido, ao menos para as bandas de cá, do lado
de baixo do equador, tendo em vista que o termo só passou a ser utilizado a
partir de 1999, com o Massacre de Columbine[1]. Assim, quando fatos como
os já relatados acima aconteciam, os conselhos dos pais, dos educadores e dos
demais adultos eram sempre no sentido de não se vitimizar, de não se permitir
ser atacado por aqueles que ofendiam, e, com isso, naturalizar os ataques
sofridos gratuitamente.
Por isso, hoje, ainda é muito
difícil falar sobre bullying. Ainda é muito difícil convencer os adultos sobre
os males que o bullying pode ocasionar na vida de uma criança e de um
adolescente. Ainda é difícil fazer com que as pessoas entendam o quanto o
bullying fere a criança e o adolescente no seu psicológico.
O menino que atacou os seus
colegas em sala de aula, levava consigo, em sua bagagem, muito mais do que o
revolver dos pais. Ele levava, também, todo um sofrimento de morte por causa
dos insultos que recebia. Seu apelido se referia ao fato de este não utilizar
desodorante, ou talvez, quem sabe, por ter algum problema nas glândulas sudoríparas
que acaba aumentando a produção de suor e, com isso, fortificando o cheiro de
gente.
Aqueles que sofreram o ataque,
sobretudo aqueles dois meninos que morreram, talvez até agora não saibam o
porquê dos tiros. Afinal era apenas uma brincadeira. Levar um desodorante para
a sala de aula para “presentear o colega” era nada além de uma brincadeira que
não tinha intenção de magoar nem ferir ninguém.
Os que cometem bullying,
muitas vezes, não sabem a dor que estão causando àqueles que sofrem as
brincadeiras, as piadas, os ataques. Os que cometem bullying, o fazem por
diversão. Os que sofrem bullying, sofrem na alma.
É necessário traduzirmos isso
às pessoas. Um adolescente está em um grande processo de convulsão sentimental.
O adolescente sofre muito mais do que um adulto. Um adolescente está um período
da vida em que deixou de ser criança, mas ainda é tratado como criança quando
se tratam de certos de assuntos, principalmente pelos pais, e não é adulto,
mas, por vezes, é cobrado como um adulto sobre questões de responsabilidade.
Assim, é normal que o
sentimento de frustração tome conta de um adolescente. E, como somos ensinados
desde criança a escondermos os nossos sentimentos (“não chore na frente dos
outros”, “não diga que não gosta de determinada coisa”, etc.), principalmente
os de decepção e tristeza, o adolescente tende pensar que ele é o único que deu
errado na vida. Que, em si, ele é uma decepção para os pais e para os amigos.
Ou melhor, que é impossível ter amigos diante do tamanho do fracasso que é a
sua vida.
Não me entendam mal. Não estou
querendo dizer que os colegas do adolescente atirador, são culpados por terem
despertado essa ira do menino. Todos são vítimas nessa situação. Ao mesmo
tempo, talvez todos nós estejamos falhando, afinal, todos somos responsáveis
por protegermos e promovermos situações dignas de vida às crianças e aos
adolescentes, como preconiza a nossa Constituição Federal de 1988.
Todos falhamos quando não
conseguimos nos comunicar com as crianças e com os adolescentes ao ponto de
fazê-los compreender que todos somos imperfeitos. Todos falhamos quando não conseguimos
abrir espaço para que esses meninos e meninas possam conversar sobre suas
angústias, seus erros, suas desesperanças.
Esse menino que atirou nos
seus colegas, o fez, provavelmente, porque seus sentimentos o sufocava. Mas
fez, principalmente, porque tinha acesso a uma arma de fogo. Seus pais, por
serem policiais militares, têm porte de arma e, por isso, podem tê-las em casa.
E esse adolescente, ao se sentir sufocado, se utilizou dela para aquilo que é o
objetivo da sua fabricação: atirar em pessoas e matar.
Quantos são os relatos de
crianças que encontraram as armas de seus pais em casa e, sem perceberem o
perigo, ao brincarem com elas, acabaram acertando a si ou a outrem. Além destes,
também há relatos de adolescentes que se utilizaram de armas para ferir a si ou
àqueles a que tinham por desafetos.
E, caso aqueles defensores da
liberação das armas alcancem seus objetivos, quantas serão as crianças e
adolescentes que estarão expostos ao perigo de se ter uma arma de fogo à mão?
A solução para o avanço da
criminalidade não passa pela liberação do porte das armas de fogo. Mas por
políticas públicas que sejam capazes de distribuir renda e criar justiça social
no país.
Sobre o bullying e demais
questões afetas às crianças e aos adolescentes, é preciso que tenhamos ações
efetivas. Precisamos fortalecer ainda mais o Sistema de Garantia de Direitos
das Crianças e Adolescentes. Precisamos fortificar a rede de proteção.
Precisamos unificar os agentes públicos em uma política concreta.
Lembro, quando presidi o
Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente em Sapucaia do Sul,
já aconteciam reuniões mensais do que chamávamos rede de enfrentamento à
violência. Nessas reuniões, o Fórum das Entidades da Sociedade Civil,
organizado pelo Conselho de Direitos, juntava os agentes envolvidos com a
política de crianças e adolescentes da cidade para debater os grandes temas do
momento e traçar linhas de atuação conjunta.
Precisamos, cada vez mais, de
ações como essas. Precisamos nos aproximar dessa nossa juventude que ainda não
se tornou adulta não para tirar-lhes a autonomia, mas para dizer que sempre têm
com quem contar. As crianças e os adolescentes precisam saber que o afeto não acaba.
E o afeto efetivo pode salvar vidas.
*Publicado originalmente no blog Humanidades em Debate, disponível em https://humanidadesemdebate.blogspot.com.br/2017/10/precisamos-falar-sobre-bullying-e-sobre.html?spref=fb
[1]
Massacre escolar ocorrido no dia 20 de abril de 1999 na Columbine High School,
em Columbine, nos Estados Unidos, cometido por alunos seniores que mataram
outros 12 alunos e um professor, além de ferirem outras 21 pessoas.
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