A
insatisfação do eleitor com a política e com os políticos tem aumentado a cada
dia. Constantes investigações encampadas pelo Ministério Público têm desnudado
certos crimes de alguns (não poucos) políticos que se utilizaram e, ainda, se
utilizam da vida pública para autopromoção e enriquecimento ilícito.
Agregado
a isso, a forte cobertura da imprensa, sobretudo em difundir vazamentos
seletivos dessas investigações, tem feito com que o eleitor receba uma carga de
constantes notícias negativas da classe política, incorporando, então, um
discurso que considera a política como a geradora dos grandes males em uma
sociedade que atravessa determinado período de crise.
De
acordo com o site “Manchetômetro”[1], entre os meses de janeiro e
setembro de 2017, os jornais Estadão, Folha de São Paulo, Jornal Nacional e O
Globo, apresentaram cerca de 7 mil matérias jornalísticas “contrárias” à
política. No entanto, somente 800 matérias “favoráveis” foram veiculadas por
esses mesmos jornais. Nesses cálculos, não estamos nos referindo nem às
matérias que apresentam certa “ambivalência”, nem àquelas consideradas
“neutras” pelos pesquisadores.
Quando
nos atemos aos “partidos políticos”, somente no mês de maio de 2017, os já
referidos jornais apresentaram pouco mais de 200 matérias contrárias ao PT (mês
em que o PT teve mais notícias negativas). Já as notícias favoráveis, somando
os nove meses em questão, não chega a um número de 30 notícias.
Quando
o partido político pesquisado é o PSDB, o mês de junho é o de maior número de
notícias negativas, em que o partido quase alcança 80 notícias contrárias
veiculadas na imprensa. No mesmo mês, o PSDB quase alcançou 20 notícias
favoráveis, praticamente superando PT em notícias positivas somente em um único
mês. Além disso, paradoxalmente, junho também foi o mês em que o partido teve o
maior número de notícias positivas veiculadas.
Ao
compararmos as notícias sobre Lula e Aécio Neves, o petista superou a marca de
225 notícias negativas somente no mês de maio, enquanto Aécio, no mês de junho,
mês em que teve o maior número de notícias contrárias a si, alcançou cerca de
70 notícias. Quanto às positivas, Aécio Neves superou Lula em todos os meses.
Como é
possível verificar, notícias negativas relacionadas à política e aos políticos
são amplamente difundidas para o eleitor. No entanto, nem todos os partidos e
nem todos os políticos recebem o mesmo tratamento. Lula e o PT são alvos de
constantes notícias contrárias que são levadas diariamente à casa do eleitorado
brasileiro. O tucano Aécio Neves e o seu partido, o PSDB, estão bem menos na
mídia do que os petistas. E, quando as notícias são negativas, as positivas
também aparecem no sentido de minimizar os ataques.
Ou
seja, por mais que Lula e o seu partido sofram diariamente com uma grande
quantidade de notícias negativas, nenhum partido e nenhum político passam
incólumes.
Nesse
sentido, é importante trazer ao debate o que fora escrito pelo juíz federal
Sergio Moro (2004, p. 57), juiz responsável pela Operação Lava Jato no âmbito
da Justiça Federal de Curitiba, no texto “Considerações sobre a operação Mani
Pulite”, que ocorrera na Itália:
A independência judiciária interna e externa, a
progressiva deslegitimação de um sistema político corrupto e a maior legitimação
da magistratura em relação aos políticos profissionais foram,
portanto, as condições que tornaram possível o círculo virtuoso gerado pela
operação mani pulite. (Grifo meu).
Ora,
como é possível perceber, há uma estratégia traçada nas constantes investigações
que estão sendo conduzidas no Brasil, que é a estratégia da deslegitimação da
política e dos políticos profissionais. Para tanto, tende a ser extramente
frutífero o trabalho realizado conjuntamente pelos agentes do sistema de
justiça e a imprensa.
Assim
como a operação Mani Pulite, na Itália, buscou a deslegitimação da
classe política, no Brasil, para que quaisquer operações contra corruptos e
corruptores fossem bem sucedidas, supõe-se a necessidade de incorporar tal
estratégia, pois “enquanto ela (a ação judicial) contar com o apoio da opinião
pública, tem condições de avançar e apresentar bons resultados” (MORO, 2004, p.
61).
Nessa
lógica, todos os políticos e todos os partidos políticos passam a ser alvos da
imprensa, pois a desconstituição da política é a legitimação da justiça. Ou
seja, desconstituir é também legitimar.
Seguindo
nessa linha de desconstituição e trabalho conjunto, o Ministério Público começa
a promover campanhas contra a corrupção e pela moralização do setor público, se
transformando em uma espécie de “bastião da moralidade”. O Projeto Lei que cria
as 10 medidas contra a corrupção é apresentado e defendido a tal ponto que a
instituição cria um website para elucidar o texto e acompanhar, de forma
pública, a tramitação do projeto no Congresso Nacional.
O
projeto que prevê a utilização de provas em processos colhidos de forma ilegal,
desde que tenha sido realizada de boa fé, e, também, limita a utilização
do habeas corpus não é nenhuma unanimidade inclusive entre os
agentes do sistema de justiça. Segundo alguns juristas e membros do Supremo
Tribunal Federal, como o Ministro Gilmar Mendes, por exemplo, o Projeto de Lei
encampado pelo Ministério Público dificulta a defesa dos investigados e
restringe direitos.
Como
defesa, o Ministério Público cita a necessidade de limpar a política da
corrupção. Nesse sentido, o ambiente criado é de que todos aqueles que se
colocam de forma contrária ao projeto parecem estar favoráveis a corrupção.
Ora,
quanto mais se debate sobre corrupção, mais há necessidade de se apresentar um
caminho de esperança. As investidas de alguns agentes do sistema de justiça em
conjunto com a imprensa têm levado o debate, nas ruas, a centralizar naquele
que eles elegeram como o grande problema: a corrupção.
Não que
a corrupção não deva ser combatida. Longe disso! Só que, enquanto passamos
horas e horas falando da corrupção e elegendo os políticos para atacar,
políticas de redução do Estado e de precarização do serviço público vem sendo
implementadas.
No
governo federal, o orçamento para políticas sociais tem sido cada vez menor. A
educação, a saúde e a assistência social tem tido cada vez menos investimento
público.
No Rio
Grande do Sul, parcelamento de salários e a extinção de fundações e autarquias
estatais são a tônica do processo político.
Por
isso, é preciso apresentar um novo caminho às pessoas. Um caminho de esperança!
É
preciso relembrar que o Brasil já havia se livrado da fome. É preciso relembrar
que é possível aumentar os salários dos servidores públicos estaduais e utilizar
essa forma de governar para aquecer a economia.
E é
preciso mais. É preciso construir saídas para toda essa crise com a
participação das pessoas. É preciso fazer com que as pessoas voltem a acreditar
na política, por mais difícil que isso pareça ser nesse momento.
*Publicado
originalmente no blog Humanidades em Debate, disponível em http://humanidadesemdebate.blogspot.com.br/2017/10/o-moralismo-na-agenda-publica-e.html?m=0
[1] “Manchetômetro” é um
website sobre temas de economia e política, criado pelo Laboratório de Estudos
de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
que tem por objetivo acompanhar a cobertura jornalística dos principais jornais
do país em relação aos temas já citados.
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