quinta-feira, 15 de junho de 2017

O corpo de Cristo e os flagelos sociais

Nesse dia 15 de junho de 2017, os católicos se reuniram para celebrar o corpo de Cristo. Celebrar o corpo Daquele que temos por Senhor, é celebrar seu corpo, seu sangue, sua alma e sua divindade. É celebrarmos a divindade encarnada, como também a humanidade incorporada ao mistério divino.

Cristo, acreditamos, se fez homem para viver entre e as mulheres e os homens e, junto conosco, caminhar em direção a algo transcendental. O transcendente é o amor e o amor é o eterno.

Em sua humanidade, Jesus, em tudo, se fez igual a nós, “exceto no pecado”, como nos diz o Catecismo da Igreja Católica. Logo, se alegrou tanto quanto nos alegramos, amou tanto quanto amamos, trabalhou tanto quanto trabalhamos, sofreu tanto quanto sofremos... Viveu tanto quanto vivemos. Mas não pecou!

Por isso, Jesus sabia que podíamos ser “santos como o pais celeste é santo”, dessa forma, ele diz exatamente isso ainda durante a sua pregação na Montanha à multidão.

Por isso, nessa quinta-feira, dia da semana em que os católicos acreditam ter acontecido a instituição da Eucaristia (que acreditamos ser verdadeiramente corpo de Cristo), nos reunimos para celebrar em comunidade, pois acreditamos que somos nós que formamos esse corpo, pois Paulo afirma em sua primeira carta a comunidade de Corinto que “uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão”.

Sendo assim, o corpo, que acreditamos ser do Senhor é formado exatamente por todas as pessoas, pois a sua Paixão se estendeu a todas as pessoas, sem distinção, para que tenhamos a vida eterna, ou seja, para que estejamos unidos no amor.

Ora, se o amor é incondicional, e ao mesmo tempo universal, os que creem, exatamente por acreditarem que Deus é amor, como diz o apóstolo João, devem acreditar que Deus está em todos os lugares onde há amor. E, se Deus é amor e a humanidade foi feita à sua imagem e semelhança, significa que a humanidade é dotada de amor para que possa transbordar amor.

Isto é, por sermos feitos para o amor, somos feitos repletos de Deus. Logo, Deus está no outro quando este vive o amor.

E aqui me remeto para algo extremamente forte que estamos vendo acontecer em nossa sociedade. É crescente uma cultura religiosa fundamentalista, em que as pessoas adoram a Deus, e eu até acredito que essa adoração seja extremamente verdadeira, mas não se importam com as pessoas que estão a sua volta, sobretudo os mais pobres.

Essa vertente religiosa que tem encontrado eco, principalmente, em movimentos neopentecostais (incluindo os movimentos católicos) tem levado as pessoas a se preocuparem muito fortemente com as palavras do antigo testamento onde são ditas que “adorarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração” e esquecerem as palavras do apóstolo João quando este diz “se alguém diz:  eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu”.

Ora, vivemos em uma sociedade onde os valores comunitários têm se perdido. O individualismo e o egocentrismo ganham muita força a cada dia que passa. Portanto, as palavras do apóstolo amado sobre ódio ao irmão, podem ser traduzidas, também, para “indiferença”. Pois, aquele que é indiferente com as dores alheias, não consegue amar e se alegrar com os outros.

As redes sociais têm trazido à tona esse tipo de pensamento que talvez estivesse guardado no mais íntimo dos corações de muita gente. Manifestações de ódio contra aqueles que pensam diferente, ou que agem diferente, têm aparecido cada vez mais em perfis de pessoas que se orgulham de postar imagens de Jesus e da Igreja ao qual pertencem.

Ataques violentos a criminosos, à população de rua, à comunidade LGBT, aos ativistas de direitos humanos, aos militantes de movimentos sociais como MST e MTST, a adolescentes infratores, não lembram em nada aquele ao qual dizem seguir. Jesus, ainda no alto da cruz, prometeu o céu ao ladrão arrependido. Jesus, não permitiu que usassem a lei contra a mulher adúltera (sim, ela seria apedrejada até a morte pois a lei permitia). Jesus se compadeceu de Zaqueu e foi à sua casa fazer uma refeição. E tudo isso, e muito mais, porque Jesus amava incondicionalmente as pessoas. IN-CON-DI-CIO-NAL-MEN-TE!

Isso não significa que Jesus aceitava os seus erros, mas ele sabia que com melhores condições de vida, com esperança de futuro, aquelas pessoas poderiam ser melhores.

Seguir Jesus, hoje, deveria ser um sinal de esperança àqueles que não têm! Seguir Jesus, hoje, deveria ser um sinal de amor àqueles que já não acreditam mais na humanidade! Seguir Jesus, hoje, é tomar para si a palavra em que Ele diz que somos “sal e luz”, para, de fato, darmos sabor e iluminarmos o caminho dos outros em direção a uma sociedade onde impere a fraternidade, a igualdade e humanidade.

Na noite fria da quarta-feira, dia 14 de junho de 2017, há umas três ou quatro quadras da Catedral Metropolina de Porto Alegre, cerca de 70 famílias foram despejadas de um prédio público abandonado pelo governo do estado há 12 anos, local onde fizeram suas casas, para serem jogadas às ruas.

Um governo que não apresenta uma política pública de moradia sequer, não permitiu que aqueles moradores permanecessem em um local abandonado, jogando-os ao relento em plena noite fria do inverno gaúcho. Essa ação levou preso um deputado estadual e algumas lideranças do movimento de moradia. Do outro lado daquela realidade, fechadas em suas casas quentes, muitas pessoas começaram, pelas redes sociais, a criticar as pessoas presas e a aplaudir a ação da Brigada Militar que jogava bombas e gás de pimenta contra os moradores (entre eles, crianças recém nascidas e idosos). Chamavam-os de “invasores”, “arruaceiros” e outros adjetivos mais. Não se importavam com a violência desferida pelo Estado, nem sequer com o local onde iriam passar a noite. Mas clamavam por uma espécie de “justiça” contra aquelas pessoas que não pagavam aluguel ou prestação habitacional como elas, pois, diziam, “querem receber tudo de graça do Estado”.

Ora, essas mesmas pessoas que não tiveram compaixão pelos moradores da Ocupação Lanceiros Negros, e de quaisquer outras ocupações, reclamam, com razão, do aumento da criminalidade em nosso país. Todavia, não percebem que são exatamente ações como essas, de despejos, de falta de condições dignas de sobrevivência, de falta de oportunidades, de falta de esperança, que levam a imensa maioria das pessoas ao crime, reforçando um círculo vicioso de desigualdade e criminalidade.

Hoje, essas pessoas estiveram em suas igrejas declarando o seu amor a Deus e à Eucaristia, muito embora tenham esquecido que Deus, antes de mais nada, está no próximo. Um próximo, tão próximo, que não enxergamos.

Disso tudo, só consigo me lembrar de uma música já antiga, cantada pelo padre André Luna que diz assim:

“Seu nome é Jesus Cristo e passa fome
E grita pela boca dos famintos
E a gente quando vê passa adiante
Às vezes pra chegar depressa a igreja

Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa
E dorme pelas beiras das calçadas
E a gente quando vê aperta o passo
E diz que ele dormiu embriagado

Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos


(...)”


Paulinho dos Santos

Nenhum comentário:

Postar um comentário