quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Gestão participativa e conselhos municipais

Paulo de Oliveira dos Santos*

Entre os meses de setembro e dezembro de 2016 estivemos a frente da coordenação dos conselhos municipais em Sapucaia do Sul. Enquanto o Governo Ballin se encaminhava para o seu final, fomos convidados para tocar o processo de construção de uma linha política entre governo e sociedade civil a partir dos conselhos municipais gestores de políticas públicas e de direitos.

Em que pese tenhamos militância política em conselhos municipais, evitei ao máximo escrever sobre o processo que vínhamos construindo paulatinamente naquele momento (muito embora tenha consciência de que esse é um grande problema da esquerda: nos comunicamos mal, não escrevemos, ou escrevemos pouco, sobre as políticas que construímos, não democratizamos a informação, etc.), enquanto compunhamos aquela coordenação. Entretanto, agora, passado aquele período, decidi escrever sobre a experiência que tivemos em pouco mais de três meses.

Um grande desafio estava colocado, construir e alinhavar uma política participativa por meio dos conselhos municipais instituídos na cidade, já na reta final de um governo. Até que ponto novas ideias, novas práticas, teriam adesão sobretudo entre a sociedade civil?

Assim, a primeira atitude que tivemos, após conhecer a realidade de todos os conselhos da cidade, foi promover uma capacitação para todos os conselheiros e todas as conselheiras de todos os conselhos municipais. Essa capacitação teve como foco envolver os conselheiros e as conselheiras no processo de controle social, tanto no sentido de construção de políticas públicas, quanto do seu acompanhamento e fiscalização contínuos.

Essa capacitação foi um grande espaço de diálogo entre os conselheiros e as conselheiras e, dessa forma, passou a ser gestada uma ideia de formação de um Fórum Permanente dos Conselhos Municipais em Sapucaia do Sul.

Durante o seminário de capacitação, foi criado um grupo de trabalho que teria por finalidade pensar uma proposta de Fórum a ser apresentada para o governo. Todavia, o grupo abriu um canal de diálogo para que todos os conselheiros e todas as conselheiras, principalmente os representantes da sociedade civil, pudessem construir de forma coletiva a proposta.

Em um grande encontro de conselheiros e conselheiras municipais, a proposta foi construída e aprovada. Após isso, foi entregue ao governo para que analisasse a viabilidade de sua implementação.


Enquanto isso, o grupo continuou se reunindo a fim de pensar formas de organizar o Fórum e de reativar os conselhos que estão inativos.

Ou seja, a Coordenação dos Conselhos Municipais, durante o período em que estivemos a frente, foi um amplo espaço colegiado de diálogo e construção. Sendo os conselhos municipais instituições democráticas e colegiadas, não poderia a sua coordenação ter uma agência diferente da preconizada nesses espaços públicos.

Nenhuma decisão foi pensada e implementada de forma individual durante esse período. Sociedade civil e governo puderam fazer desse espaço uma grande mesa de diálogo no sentido de construir de forma coletiva uma política própria para os conselhos municipais.

Penso que esse tenha sido o maior resultado em relação àquele desafio inicial que estava posto, que era de construir uma política na reta final de um governo. A política foi construída de forma coletiva criando condições para o empoderamento da sociedade civil e, até mesmo, do seu encantamento.

Portanto, todo esse processo reafirmou a convicção que trago comigo de que a radicalização da democracia com a ampla participação popular na construção das políticas públicas é o caminho da esquerda. Afinal, gestões participativas, amplamente democráticas, são modelos de gestão que fogem da ortodoxia do Estado burguês.



* Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFRGS. Atuou na Coordenação dos Conselhos Municipais em Sapucaia do Sul entre os meses de setembro e dezembro de 2016. É filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 2007.

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