quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O avanço das forças conservadoras no Brasil ou o fim do “Brasil sem miséria”

Paulo de Oliveira dos Santos*


Hoje eu conheci o Ângelo[1], um menino negro, magro, pequeno, de 13 anos de idade. Ângelo podia ser também Roberto, Tereza, João Guilherme, Ana, Wallyson, Sheron, ou outros tantos adolescentes, ou outras tantas crianças do Brasil.

Ângelo não estava brincando, nem estudando, nem correndo na rua. Ele estava sentado no meio fio da calçada, em frente ao banco, cuidando carros. O horário? Mais de vinte horas.

Fui abordado por ele enquanto entrava no banco. Ele sorria um sorriso largo. Me chamou de tio e me pediu umas moedas. Estava sujo, talvez por causa da chuva que havia caído há pouco. Parei para conversarmos.

Perguntei seu nome, sua idade e onde estudava. Ele me disse que estudava todos os dias pela manhã em determinada escola que fica próximo da casa onde mora com a avó.

Sobre a família, me respondeu que a mãe morreu há pouco mais de um ano. O pai? Não conheceu e não tinha um bom relacionamento com o padrasto. Por isso, ele e seus três irmãos foram morar com a avó. Ela não tinha conseguido receber o Bolsa Família ainda, mas estavam ansiosos pelo “cartão que ela vai receber” (sic). Então, como as coisas estão difíceis em casa, ele sai para cuidar carros e ajudar a avó.

Por algum tempo, parecia que havíamos nos libertado de histórias como essas, ao menos nas cidades com melhor índice de desenvolvimento humano. Mas, infelizmente, tem sido cada vez mais comum encontrarmos adolescentes, e até mesmo crianças, realizando algum tipo de trabalho nas ruas, nos trens, nas paradas de ônibus, etc.

Suas intenções, e eu poderia dizer que até mesmo as das suas famílias, são as melhores possíveis. Poder ajudar em casa, não passar fome, etc. Mas, mesmo assim, isso é desumano!

Crianças e adolescentes não devem estar nas ruas. Mas, desgraçadamente, é o que temos voltado a ver cada vez com mais frequência nas nossas cidades.

Após anos de investimentos públicos com políticas sociais, com programas de desenvolvimento humano, o presente prepara um futuro que tende a ser sombrio em nosso país.

Enquanto escrevo esse texto, o atual Presidente (usurpador) Michel Temer, janta com Senadores e Senadoras, gastando alta fortuna, a fim de garantir a aprovação de uma Proposta de Emenda Constitucional (a famigerada 241, que foi rebatizada como 55) que vai congelar os gastos públicos por 20 anos. Ou seja, se aprovada ainda em 2016, essa proposta valerá até 2036.

Enquanto escrevo esse texto, Ângelo e outros tantos adolescentes estão voltando às ruas para ajudar suas famílias em casa, pois não há mais possibilidade de futuro para eles.

Aquele país inclusivo, onde os mais pobres podiam sonhar em não morrer na miséria, em que o futuro parecia maravilhoso, está acabando lentamente. Primeiro foi a entrega do Pré-Sal às empresas privadas. Agora, o congelamento da fatia do orçamento que atende justamente aqueles e aquelas que mais precisam do Estado. Junto a isso, estão preparando ataques à previdência social e ao trabalho.

Isto é, primeiro estão atacando a infância e a adolescência (estão cumprindo o princípio constitucional da prioridade absoluta às crianças e aos adolescentes, só que ao contrário), depois, vão atacar os idosos e, por fim, também os trabalhadores.

Ora, o que vemos é que inevitavelmente estamos a caminho do constante desmantelamento dos direitos sociais. E isso já é real e palpável! Hoje, eu dei de cara com essa realidade indegesta. Mas também já havia me deparado com ela ontem e antes de ontem, em locais e situações diferentes.

Aquele Brasil bonito, colorido, inclusivo, está voltando a ser excludente. Está voltando a ser de um pequeno grupo de pessoas que dizia querer o seu país de volta.

Entretanto, a nossa atuação não pode, em momento algum, ser de subserviência. Nós, que sabemos todos os problemas que essas propostas nos acometerão, devemos seguir lutando contra essas medidas que têm sido impostas pelos setores mais conservadores de nossa sociedade.

Os conselhos municipais, as associações de moradores, os clubes de mães, as igrejas e as demais organizações não governamentais que desenvolvem importantes trabalhos na garantia e na proteção dos direitos humanos de crianças, adolescentes, idosos, LGBTTs, população negra, etc., devem se mobilizar. Devem fazer de seus espaços, verdadeiros espaços de construção coletiva, de debate, de proposição, de libertação.

Não podemos nos calar enquanto Ângelos, Clarissas, Marias, Deivids, etc., estão voltando às ruas por causa de uma elite que não aceitou dividir as vagas nas universidades, nos aviões, no futuro, com os mais pobres.

Retroceder, jamais!




* Paulo de Oliveira dos Santos é acadêmico do curso de Ciências Sociais da UFRGS, presidente do Conselho Municipal de Assistência Social e conselheiro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Sapucaia do Sul.
[1] A fim de preservar a identidade do adolescente, e sua dignidade, será utilizado um nome fictício para denominá-lo.

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