Paulo
dos Santos[i]
·
Introdução:
Desde
o final do ano de 2019, o mundo passou a conviver com o COVID-19. O novo
coronavírus tem forte impacto nos sistemas de saúde, tendo em vista sua rápida
proliferação na sociedade, que pode facilmente levar o sistema ao colapso por
conta do alto número de infectados em tão pouco tempo o que acaba levando à
morte um número avançado de pessoas. Por conta disso, a única forma de controle
na transmissão do vírus, recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é
o isolamento social.
Até
aqui, tudo o que está dito já é amplamente conhecido devido as inúmeras
pesquisas e reproduções jornalísticas as quais temos acesso. Além disso, também
é largamente conhecido, o debate que se formou no Brasil em que setores
políticos de extrema direita buscam certa simetria entre: isolamento social e
queda nos rendimentos econômicos.
Esse
grupo político, liderado pelo presidente da República Federativa do Brasil,
Jair Bolsonaro, e seu Ministro da Economia, Paulo Guedes, busca marcar as
políticas de isolamento social, defendidas por praticamente todos os
governadores e prefeitos, de acordo com as orientações da OMS, como
responsáveis pela queda na economia, no aumento do desemprego, na queda das
taxas de consumo das famílias, e, com isso, tirar do seu grupo político a
responsabilidade sobre a má condução da economia.
Por
conta disso, há uma constante mobilização nesse setor de extrema direita, a fim
de pressionar o poder público municipal e estadual a romper com as políticas
que vinham sendo adotadas e, com isso, modificar a agenda pública de combate ao
coronavírus em nome de pseudo-defesa da economia.
Dessa
forma, o Brasil chega, no dia 05 de junho de 2020, com 659.114 pessoas com
diagnóstico de COVID-19 confirmados e 35.456 mortes por conta do coronavírus.
Em 05 de maio, o país contabilizava 114.715 casos confirmados e 7.921 mortes,
ou seja, um acréscimo de 474,56% de casos e 347,62% de óbitos em um mês.
Para
essa rápida pesquisa, traço como linha de análise os dados oficiais da
Prefeitura Municipal de Sapucaia do Sul, publicizados em veículo de mídia
social próprio da Comunicação Social da Prefeitura – página no Facebook, com todos os dados publicados
em relação às pessoas testadas para COVID-19 e todos os Atos Legais do governo
municipal para o combate ao coronavírus. Foi necessário pesquisa post a post no Facebook, pois ao
que parece, não há, no site do governo, nenhuma tabela de atualização diária,
apenas as publicações que são feitas diariamente pela Comunicação Social. Além
disso, se utiliza uma notícia do Jornal Vale dos Sinos do dia 24 de abril de
2020, confirmada pelo Instagram do vereador Gervásio Santana (PP), em
publicação do dia 22 de abril.
·
COVID-19
em Sapucaia do Sul
Em
Sapucaia do Sul, o aumento percentual supera os dados no Brasil. Em 05 de maio,
tínhamos 20 casos de COVID-19 confirmados, em 05 e junho esse número chega a
158, o que significa um aumento de 690% nos casos em um mês. Em relação ao
número de óbitos, o primeiro apontamento na cidade se deu em 13 de maio, em 05
de junho chega a 09 vítimas. Esse número significa 800% de aumento em menos de
25 dias, como é possível verificar nos gráficos 1 e 2.
Gráfico 1.
Fonte:
Prefeitura Municipal de Sapucaia do Sul.
Gráfico
2.
Fonte: Prefeitura Municipal de Sapucaia
do Sul.
Como
é possível verificar no Gráfico 1, o aumento considerável dos casos em Sapucaia
do Sul começa a se dar a partir do dia 02 de maio. Para maior compreensão desse
aumento, fizemos coleta de dados referentes aos Atos Oficiais publicados pela
Comunicação Social da Prefeitura no Facebook da página da Prefeitura Municipal
de Sapucaia do Sul e verificamos a existência dos seguintes atos que ocorrem
entre os dias 20 de abril e 01 de maio, conforme pode ser verificado na Tabela
1.
Tabela1.
|
20/abr
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Flexibilização das medidas - salão de
beleza e igrejas
|
|
27/abr
|
Retorno de atendimento presencial no
SINE
|
|
30/abr
|
Decreto de exigência de máscara na
cidade
|
|
01/mai
|
Abertura gradual do comércio -
varejistas, serviços, autônomos, liberais, MEI
|
Fonte: Prefeitura Municipal de Sapucaia
do Sul.
Além
disso, se tornou notícia na cidade a formação de uma Frente Parlamentar em
defesa da abertura do comércio, conforme pode se ver abaixo na Imagem 1,
formada pelos vereadores Cléber Alemão e Gervásio Santana (PP), Dr. Imília
(PRTB) e Jorge Barbosa (PSD), todos que compõem a base de apoio de Jair
Bolsonaro na cidade.
Imagem 1.
Embora
a notícia seja do dia 24 de abril, segundo a publicação do vereador Gervásio
Santana, em sua conta no Intagram, o pedido de abertura do comércio feito pelo
grupo de vereadores se deu no dia 22 de abril. Logo, um simples cruzamento dos
dados nos faz ter a seguinte percepção, o início do aumento considerável dos
casos de COVID-19 na cidade se deu após a abertura do comércio capitaneada por
esses vereadores que, como dissemos, compõem a base de apoio de Jair Bolsonaro
e que estão mobilizados na defesa dos interesses do debate promovido pelo
presidente, como outrora dissemos, que é a tentativa de usar politicamente uma
falsa simetria entre isolamento social e queda na economia.
·
Considerações
finais:
Esse
breve texto busca apenas evidenciar algo que quotidianamente os cientistas da
área vêm orientar: relaxar a política de isolamento social é antecipar o pico
de casos de COVID-19 nas nossas cidades.
Além
disso, usar da falsa simetria “isolamento social e queda na economia” é colocar
em risco a vida das pessoas.
Com
a mudança na política de isolamento social defendida pelos vereadores Cléber
Alemão e Gervásio Santana (PP), Dr. Imília (PRTB) e Jorge Barbosa (PSD),
Sapucaia passou de 20 casos confirmados para 158. Isto é, entre os dias 02 de
abril e 05 de maio, período em que o governo municipal apertou as medidas de
contingenciamento, somente 20 casos foram confirmados. Com o relaxamento das
medidas, esse número apresenta um salto de 690%. Da mesma forma o registro de
pessoas vitimadas pelo vírus: o primeiro caso só vai ocorrer após o relaxamento
da política e, em menos de 25 dias, esse aumento chega a 800%.
O
que os gráficos ainda mostram é que a curva ainda é ascendente em Sapucaia do
Sul. Ou seja, o relaxamento da política de combate ao COVID-19, foi precoce e
ainda segue colocando em risco a vida dos sapucaienses.
[i]
Paulo dos Santos é Cientista Social pela UFRGS, mestrando do Programa de Pós
Graduação em Ciência Política da UFRGS, militante da Democracia Socialista e
Secretário de Educação e Formação Política do PT de Sapucaia do Sul.
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