quarta-feira, 11 de março de 2015

Dia Internacional da Mulher e a constante luta das mulheres

Mais um dia 08 de março chegou e passou e, como já é de costume, as floriculturas se encheram de homens e se esvaziaram de rosas. Seria tão lindo, se não fosse tão trágico!


Muitos foram os companheiros, maridos, noivos, namorados, filhos que se apressaram para levar para casa aquele belo botão vermelho de uma rosa que fosse capaz de demonstrar o quanto aquela mulher lhe é importante. Nada contra o romantismo – adoro oferecer flores para a minha namorada com uma frequência mensal. O que nos leva à reflexão nesse ato é que um importante dia de luta das mulheres por conquistas de direitos tem dado lugar a um romantismo, por vezes, barato!

Há quem diga que o discurso sobre o machismo impregnado, institucionalizado, na sociedade já encheu o saco. Há, inclusive, pessoas que negam a existência do machismo. Há quem diga que o machismo só existe na cabeça de quem “se diz” oprimida. Deve ser na cabeça mesmo, ou melhor, no corpo inteiro! Afinal, quantas são as mulheres que, em pleno século XXI, são objetificadas por causa do seu corpo? Quantos são os companheiros, noivos, namorados, que ainda se acham donos do corpo daquelas que eles têm como “suas” mulheres? Quantas são as mulheres que são violentadas sexualmente no seu lar, por aqueles homens que acham que estão no direito de decidirem quando irão ter uma relação sexual sem se importar com a vontade e a satisfação da parceira? Quantas são as mulheres que apanham caladas dentro de casa? Quantas são as mulheres que são estupradas na rua e ainda saem com o rótulo de “mulher fácil” por causa da roupa curta, ou justa, que vestia? Quantas são as mulheres que recebem salário menor do que os homens? Quantas são as mulheres em posições de destaque na sociedade, nas universidades, no campo da ciência? Quantas são as mulheres...

Talvez você que está lendo este artigo, esteja achando que eu estou exagerando, ou fazendo “tempestade em copo d’água”. Mas eu quero trazer à tona, como argumentos, alguns breves casos.

No dia 25 de fevereiro de 2015, o Programa Agora é Tarde, apresentado pelo polêmico humorista Rafinha Bastos, reprisou uma entrevista com o “célebre” ator pornô (?) Alexandre Frota, transmitida pela primeira vez em maio de 2014. Nessa entrevista, o ator descreve um estupro realizado por ele a uma “Mãe de Santo”. De acordo com Alexandre Frota, a mulher chegou a desmaiar tamanha a pressão que ele impôs sobre ela (veja a entrevista na íntegra aqui). Resultado, a plateia o aplaudiu no final da descrição!

Outro caso. No final do ano de 2014, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP – RJ), subiu a tribuna e, no auge da sua sapiência de parlamentar, declarou que não estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT – RS) pelo fato dela não merecer. Isso é um choque, afinal, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA – 26% dos brasileiros acreditam que mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas!

Outro caso, mais uma do deputado federal Jair Bolsonaro. Em uma entrevista ao Jornal Zero Hora, do grupo RBS, o deputado disse que a mulher tem que ganhar menos do que o homem porque ela engravida. Segundo ele, uma mulher que engravida atrapalha o sistema produtivo de uma empresa, por isso merece ganhar menor salário do que o homem.

Outro caso, e vou parar neste. Normalmente, em uma discussão ou debate, quando um dos lados é uma mulher, ela, normalmente, é rebaixada na questão do gênero antes de qualquer outra argumentação. Durante a campanha presidencial de 2014, por exemplo, quantas vezes o senador, e então candidato, Aécio Neves, virou sua artilharia contra as candidatas Luciana Genro e Dilma Rousseff atacando exatamente o fato delas serem mulheres? Quantas vezes o senador apontou o dedo indicador contra elas utilizando a palavra “leviana”, a fim de reverberar a máxima de que as mulheres são fofoqueiras e mentirosas? Ou então, em outros momentos, quantas vezes a presidenta Dilma Rousseff foi ofendida com palavras duras, como “vagabunda”, “piranha”, “machorra”, “mal c...”, etc., ao invés de ser questionada quanto ao projeto político que apresenta? Forçando uma desclassificação pessoal de gênero e não técnica.

No Brasil do século XXI, as mulheres continuam sendo atacadas, ofendidas, desmoralizadas, violentadas, normalmente por aqueles românticos do dia 08 de março.

A luta das mulheres não cessou com a conquista do voto ou qualquer outro tipo de direito conquistado. A luta das mulheres é constante!

Ainda hoje, após o expediente de trabalho, a mulher volta para casa para cumprir sua dupla ou tripla jornada de trabalho, como mãe e dona de casa. A cozinha ainda é um ambiente dado às mulheres, mesmo elas cumprindo exaustivas jornadas de 8 horas de trabalho. A educação dos filhos, também é jogada somente no seu colo, como se elas fossem as únicas responsáveis pelas crianças. E ao chegar a noite, ainda devem estar limpas, cheirosas, depiladas e dispostas!

Por isso, muito mais do que romantismo no dia 08 de março de cada ano, essa data nos convida a refletir e a respeitar a luta das mulheres. Uma luta que, mesmo em condições adversas, vem sendo travada na nossa sociedade. Uma luta por direitos, não por privilégios!

Neste dia, guarde as suas rosas, ofereça o seu respeito!



Bibliografia

Revista Forum. Band pode ser responsabilizada pela entrevista de Alexandre Frota. Disponível em: <http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/03/band-pode-ser-responsabilizada-pela-entrevista-de-alexandre-frota/>  Acesso em 10 de março de 2015.

Época. A culpa é delas. É o que pensam os brasileiros sobre a violência contra a mulher. Disponível em: <http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/03/b-culpa-e-delasb-e-o-que-pensam-os-brasileiros-sobre-violencia-contra-mulher.html> Acesso em 10 de março de 2015.

Sul21. Jair Bolsonaro diz que mulher deve ganhar salário menor porque engravida. Disponível em: < http://www.sul21.com.br/jornal/jair-bolsonaro-diz-que-mulher-deve-ganhar-salario-menor-porque-engravida/> Acesso em 10 de março de 2015.


Nenhum comentário:

Postar um comentário