Mais um dia 08 de
março chegou e passou e, como já é de costume, as floriculturas se encheram de
homens e se esvaziaram de rosas. Seria tão lindo, se não fosse tão trágico!
Muitos
foram os companheiros, maridos, noivos, namorados, filhos que se apressaram
para levar para casa aquele belo botão vermelho de uma rosa que fosse capaz de
demonstrar o quanto aquela mulher lhe é importante. Nada contra o romantismo – adoro
oferecer flores para a minha namorada com uma frequência mensal. O que nos leva
à reflexão nesse ato é que um importante dia de luta das mulheres por
conquistas de direitos tem dado lugar a um romantismo, por vezes, barato!
Há
quem diga que o discurso sobre o machismo impregnado, institucionalizado, na
sociedade já encheu o saco. Há, inclusive, pessoas que negam a existência do machismo.
Há quem diga que o machismo só existe na cabeça de quem “se diz” oprimida. Deve
ser na cabeça mesmo, ou melhor, no corpo inteiro! Afinal, quantas são as
mulheres que, em pleno século XXI, são objetificadas por causa do seu corpo?
Quantos são os companheiros, noivos, namorados, que ainda se acham donos do
corpo daquelas que eles têm como “suas” mulheres? Quantas são as mulheres que
são violentadas sexualmente no seu lar, por aqueles homens que acham que estão
no direito de decidirem quando irão ter uma relação sexual sem se importar com
a vontade e a satisfação da parceira? Quantas são as mulheres que apanham caladas
dentro de casa? Quantas são as mulheres que são estupradas na rua e ainda saem
com o rótulo de “mulher fácil” por causa da roupa curta, ou justa, que vestia?
Quantas são as mulheres que recebem salário menor do que os homens? Quantas são
as mulheres em posições de destaque na sociedade, nas universidades, no campo
da ciência? Quantas são as mulheres...
Talvez
você que está lendo este artigo, esteja achando que eu estou exagerando, ou
fazendo “tempestade em copo d’água”. Mas eu quero trazer à tona, como
argumentos, alguns breves casos.
No
dia 25 de fevereiro de 2015, o Programa Agora é Tarde, apresentado pelo polêmico
humorista Rafinha Bastos, reprisou uma entrevista com o “célebre” ator pornô (?)
Alexandre Frota, transmitida pela primeira vez em maio de 2014. Nessa
entrevista, o ator descreve um estupro realizado por ele a uma “Mãe de Santo”.
De acordo com Alexandre Frota, a mulher chegou a desmaiar tamanha a pressão que
ele impôs sobre ela (veja a entrevista na íntegra aqui). Resultado, a plateia
o aplaudiu no final da descrição!
Outro
caso. No final do ano de 2014, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP – RJ),
subiu a tribuna e, no auge da sua sapiência de parlamentar, declarou que não
estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT – RS) pelo fato dela não
merecer. Isso é um choque, afinal, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada – IPEA – 26% dos brasileiros acreditam que mulheres que usam roupas
curtas merecem ser estupradas!
Outro
caso, mais uma do deputado federal Jair Bolsonaro. Em uma entrevista ao Jornal
Zero Hora, do grupo RBS, o deputado disse que a mulher tem que ganhar menos do
que o homem porque ela engravida. Segundo ele, uma mulher que engravida
atrapalha o sistema produtivo de uma empresa, por isso merece ganhar menor
salário do que o homem.
Outro
caso, e vou parar neste. Normalmente, em uma discussão ou debate, quando um dos
lados é uma mulher, ela, normalmente, é rebaixada na questão do gênero antes de
qualquer outra argumentação. Durante a campanha presidencial de 2014, por
exemplo, quantas vezes o senador, e então candidato, Aécio Neves, virou sua
artilharia contra as candidatas Luciana Genro e Dilma Rousseff atacando exatamente
o fato delas serem mulheres? Quantas vezes o senador apontou o dedo indicador
contra elas utilizando a palavra “leviana”, a fim de reverberar a máxima de que
as mulheres são fofoqueiras e mentirosas? Ou então, em outros momentos, quantas
vezes a presidenta Dilma Rousseff foi ofendida com palavras duras, como “vagabunda”,
“piranha”, “machorra”, “mal c...”, etc., ao invés de ser questionada quanto ao
projeto político que apresenta? Forçando uma desclassificação pessoal de gênero
e não técnica.
No
Brasil do século XXI, as mulheres continuam sendo atacadas, ofendidas,
desmoralizadas, violentadas, normalmente por aqueles românticos do dia 08 de
março.
A
luta das mulheres não cessou com a conquista do voto ou qualquer outro tipo de
direito conquistado. A luta das mulheres é constante!
Ainda
hoje, após o expediente de trabalho, a mulher volta para casa para cumprir sua
dupla ou tripla jornada de trabalho, como mãe e dona de casa. A cozinha ainda é
um ambiente dado às mulheres, mesmo elas cumprindo exaustivas jornadas de 8
horas de trabalho. A educação dos filhos, também é jogada somente no seu colo,
como se elas fossem as únicas responsáveis pelas crianças. E ao chegar a noite,
ainda devem estar limpas, cheirosas, depiladas e dispostas!
Por
isso, muito mais do que romantismo no dia 08 de março de cada ano, essa data
nos convida a refletir e a respeitar a luta das mulheres. Uma luta que, mesmo
em condições adversas, vem sendo travada na nossa sociedade. Uma luta por
direitos, não por privilégios!
Neste
dia, guarde as suas rosas, ofereça o seu respeito!
Bibliografia
Revista Forum. Band
pode ser responsabilizada pela entrevista de Alexandre Frota. Disponível em: <http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/03/band-pode-ser-responsabilizada-pela-entrevista-de-alexandre-frota/>
Acesso em 10 de março de 2015.
Época. A
culpa é delas. É o que pensam os brasileiros sobre a violência contra a mulher. Disponível em: <http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/03/b-culpa-e-delasb-e-o-que-pensam-os-brasileiros-sobre-violencia-contra-mulher.html>
Acesso em 10 de março de 2015.
Sul21. Jair
Bolsonaro diz que mulher deve ganhar salário menor porque engravida. Disponível em: < http://www.sul21.com.br/jornal/jair-bolsonaro-diz-que-mulher-deve-ganhar-salario-menor-porque-engravida/>
Acesso em 10 de março de 2015.

Nenhum comentário:
Postar um comentário